domingo, 16 de agosto de 2009

Vitória X Coritiba (Sulamericana)

Jogo às 19:15 de uma quinta-feira é sacanagem, mas era também a estréia do Vitória em uma competição internacional. Consegui sair às 18:50 do trabalho e só entrei no Barradão aos 25 do primeiro tempo.

Aproveitando que já estava atrasado, aproveitei o fraco movimento no stand do “Sou mais Vitória” e finalmente peguei minha carteira. A camisa oficial, garantiu a funcionária, chegaria, sem falta, em setembro. Fiz a carteira em fevereiro.

Procurando lugar, percebi que o Vitória começou mal o jogo. Em uma tentativa frustrada de contra-ataque, os torcedores perderam a paciência:
– Que é que tá acontecendo com esse Vitória hoje? – gritou um bigodudo.
– Que porra é essa, Vitória? – gritou um careca, amigo do bigodudo.
Sentei atrás de um grupo que não parava de falar. Sentei de propósito para ouvir a conversa. Estádio vazio é bom pra isso.
¬– Vitória tá mal, é? – perguntei.
– Mal? Se tivesse mal tava bom. O Vitória tá um cu...

Outro fator bom do estádio vazio foi que, em uma bola no meio campo, Willian dominou sem perceber que tinha um marcador do Coritiba atrás dele. A torcida junta gritou “LADRÃO”. Willian na hora tocou a bola.
Em outro lance, Apodi estava marcando perto da arquibancada e conseguiu desarmar a jogada, botando a bola pra fora. O careca gritou:
– Boa, Apodi, seu lugar é aí, porra...
Apodi, na hora, olhou na direção da gente.
“Porra, ele ouviu, ele ouviu...”, disseram vários ao mesmo tempo.

O Vitória criou algumas jogadas no final do primeiro tempo. Roger perdeu um gol debaixo da trave e os torcedores, como em todos os temas sobre futebol, não se entendem:
– Ele é muito lento – disse o bigodudo.
Um gordinho defendeu:
– Rapaz, o cara é bom, não é à toa que ele fez nove gols. Isso aqui é primeira divisão, fazer nove gols na primeira divisão não é pra qualquer um...
– Fez nove mas perdeu noventa...

Apodi também tentou chutando de fora, mas o goleiro espalmou e o primeiro tempo terminou zero a zero.

Pro segundo tempo, fui filmar perto do gol do ataque do Vitória. Colado no alambrado estavam dezenas de crianças. Aquelas criaturas inocentes e engraçadas infernizavam Eduardo, o goleiro do Coritiba, que se aquecia pro segundo tempo. “Vai tomar frango”, “Viado” e “Cabeça de rola” era o que o pobre rapaz mais ouvia.
E no primeiro minuto, ele tomou um. Não foi um frango, mas foi gol. Um a zero Vitória. Veja vídeo aqui.

Um cara me viu filmado, se aproximou e começou a falar:
– Rapaz, eu acho que tem que colocar Bida no lugar de Willian e Neto Berola no lugar de Jackson. Tô falando isso porque o torcedor não é burro. Eu jogo bola, você joga bola... A gente entende, né não?

Willian entrou pela esquerda e chutou forte. O goleiro defendeu. Em outro contra-ataque, Jackson chegou atrasado.
O cara ficou pirado:
– Que burrice da porra, viu Ricardo? – disse, gritando para Ricardo Silva, o técnico do Vitória nessa partida. Ele continuou: – Deixar de botar um cara de 20 anos pra colocar um de 40 é foda. Não tá vendo que o ataque tá sem velocidade?

Em outro momento, Gléguer falhou e, mesmo tendo sido o herói do último jogo, o torcedor me faz crer que se Cristo voltasse, que ele seria novamente crucificado:
– Esse Gléguer nunca me passou confiança – vociferava ele, virando pra mim, dizendo: – Esse time vai ter que melhorar. Dando 160 mil reais por mês pra Mancini, esse time vai ter que melhorar...

A torcida toda estava impaciente com Jackson. Ele perdia uma bola e a torcida pedia sua saída. E isso de pegar no pé de Jackson não foi a primeira vez que aconteceu no Barradão, assim como não foi a primeira vez que aconteceu de, justamente nesse momento, Jackson fazer um gol: uma arrancada digna de um garoto que terminou com a bola no canto esquerdo do gol, mostrando pra torcida que o que importa no futebol é a raça. Dois a zero, um bom placar para o jogo de volta.

Depois Jackson ainda quase fez outro, chutando de longe no canto direito, fazendo Eduardo se esticar todo.
Na subida das escadas, ido embora, muitos diziam:
– O velhinho é foda... Eu te falei, o velhinho tem que ser titular...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Vitória X Fluminense (tudo de novo)

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Antes de falar do jogo, uma curiosidade: descobri que no álbum de figurinhas do campeonato brasileiro deste ano, que o Bahia, diferente de outros times, só teve direito a uma página.
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O caminho ao estádio estava vazio. O Dia dos Pais (e as últimas derrotas do time) fez muitos torcedores não saírem de casa. Eu já não pude ir ao jogo contra o São Paulo, pois, mesmo sendo sábado, eu estava trabalhando. Desconfio que deu azar já que foi a primeira derrota no Barradão nesse campeonato. Tinha que ir nesse.

Fui ler o texto que fiz para o jogo Vitória X Fluminense do ano passado e achei que podia copiar e colar aqui. Muitas semelhanças entre os jogos: foi num dia de sol forte, o Vitória jogou com o uniforme número dois, o Fluminense estava na zona de rebaixamento, o Vitória saiu na frente, o Fluminense virou...

No jogo desse fim de semana, Roger deu o passe pra um gol, fez o outro, furou feio em um chute, foi fominha em outro lance, chegou lento em outra jogada... E Apodi tentou, Leandro Domingues tentou, Ramon entrou... Mas o jogo, também como no ano passado, acabou 2 x 2. Veja o vídeo aqui.

– Começou a crise – disseram os tricolores que trabalham comigo, na segunda-feira, um dia depois desse empate com o Fluminense.

Renato Gaúcho, hoje técnico do Fluminense, em 1989 disse que aqui na Bahia só tinha índio. Em compensação levou um ovo de mira laser na moleira. Veja vídeo aqui. E o torcedor do Bahia, como sempre mulher de malandro, ainda vai ao Barradão torcer pra ele. Vi muitos por lá, infiltrados, com crise de abstinência por um jogo da primeira divisão.

No dia do jogo contra o São Paulo, ficamos trabalhando ouvindo o jogo pela internet. Quando o São Paulo fez o gol, houve uma efusiva comemoração por parte da parte tricolor da sala. Eu e André, os únicos rubro-negros, fomos compreensivos com eles e deixamos que festejassem.

No sábado seguinte, trabalhando de novo, foi a vez de ouvir na internet Vila Nova X Bahia. Gol do Vila Nova e a parte rubro-negra humilhou os tricolores da sala ficando em completo silêncio. Eles também ficaram em silêncio, cabisbaixos... Aí eu olhei pra André e dei uma risadinha discreta que foi percebida pelos tricolores. Os caras então perderam o controle:
– Que é que esse torcedor do Vitória quer, meu Deus? – dizia um, menosprezando.
– Perderam de um a zero do São Paulo em casa, não podem falar nada – disse outro, sem senso de proporção.
– Sou bi, sou bi e você é o quê? – perguntou um, em completo desespero.
Respondi a ele que eu era hetero, mas que tudo bem, não tenho preconceitos...
E tudo isso porque eu dei uma risadinha.

Como já falei uma vez aqui nesse blog, inclusive no texto do ano passado do jogo contra o Fluminense, não filmo o ataque adversário. Faço isso por superstição (e pra economizar a fita e a bateria da filmadora), o que é muitas vezes injusto com o goleiro Viáfara, pois nunca registro os seus feitos. Um filho de um amigo meu tem dois colegas na escola que eram Bahia, mas que viraram Vitória por causa de Viáfara e Apodi.

Mas dessa vez a injustiça será com o goleiro que o substitui, Gléguer. Vale a lembrança das fantásticas defesas que fez durante o jogo todo, sobretudo, aos 48 do segundo tempo. Essas, além de espetaculares, valeram tanto quanto os dois gols do Vitória no jogo. O jogo acabou logo em seguida e Gléguer foi injustiçado por toda a torcida, que vaiava o time. Era pra ter aplaudido.

O campeonato é longo. É o campeonato brasileiro da primeira divisão, todo jogo é difícil, portanto, para mim, um empate em casa, faltando metade do campeonato, passa longe de ser algo desesperador. Mas mesmo assim Capergiani foi demitido. Para muitos ali no Barradão, para a imprensa que fatura com isso e para o pobre torcedor do Bahia, o empate em casa era motivo de crise no Vitória.

Quando acabei de escrever esse texto, descobri que o jogo Bahia X Ponte Preta acabou 2 x 2. Empatou em casa e está a um ponto da zona do rebaixamento para a 3º Divisão.
Cheguei ao trabalho e pra respeitar a dor dos meu colegas, não fiquei em silêncio e perguntei com uma certa dose de misericórdia:
– E esse Bahia, hein?
São meus amigos, gosto deles e achei que o silêncio seria muita humilhação. 
 


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Vitória X Coritiba (coxa vermelha e preta)

Domingo de manhã fui pra praia. No caminho, avistei inúmeros transeuntes com camisa do Bahia. Ganharam um jogo no dia anterior, foram pra décima primeira colocação do campeonato da segunda divisão e fizeram carreata com buzinaço. No dia seguinte saíram às ruas orgulhosos do incrível feito. A manchete do jornal Correio estampava “Tricolor voltou”.

Ontem o tricolor voltou ao normal e empatou com o Juventude, dentro de Pituaçu, depois de abrir dois a zero. A manchete do Correio foi “Tricolor dá mole”.

Um amigo meu torcedor do Vitória disse que ia dar um pacote de meia pro Bahia.
¬- Tenho vários pares lá em casa.
Ele disse que ouviu a resenha do jogo e que a reclamação chorosa era “o Bahia não tem meia, o Bahia não tem meia...”.

Já na praia, avistei um grupo jogando bola, fazendo salão. Um deles estava com a camisa do Vitória. Fui dar um mergulho e ao passar por ele, perguntei:
¬– E esse Vitória hoje?
– Vai brocar – respondeu.

Minha irmã nunca foi a um estádio e momentos antes de sair de casa, ela me ligou dizendo que iria também. “Vai dar sorte”, pensei, espantando pra longe a chance dela ser pé-frio.

Era um jogo importante onde o Vitória precisava vencer por dois motivos óbvios: era no Barradão e era a chance de voltar ao G4.

Quando o time empatou com o Atlético MG, os torcedores do Bahia começaram a dizer:
– Agora é ladeira abaixo.

– Depois perdeu pro Corinthians e eles disseram:
– Nunca mais vai voltar ao G4.

Interessante é que antes do campeonato começar, a urucubaca era de que o Vitória ia cair. Agora a urucubaca é de que o Vitória não fica entre os quatro. São uma espécie divertida esses torcedores do Bahia.

O jogo começou com os olhos em Roger. Na verdade, começou com os olhos em Gléguer, o goleiro reserva que substituía, de última hora, o milagroso Viáfara, pegando a torcida de surpresa.
Roger é o artilheiro do time, fez oito gols, mas perdeu 80. Nesses dois jogos citados acima, o Vitória só não somou quatro pontos por causa dele. O time tem criado, tem jogado bem, o coloca na cara do gol, mas ele perde.
– Essa disgraça não joga nada. Desde o início do campeonato que tô dizendo isso... – dizia um revoltado senhor do meu lado.
Uns defendiam o jogador com “o cara é bom, o cara é bom, não fez oito gols à toa...”.
– Oito gols de cagada, com a bola batendo nele e entrando – gritava o revoltado.

Itacaré é o nome mais falado nessas discussões. A torcida quer que ele entre logo, dizendo que ele está com fome de bola e que jamais perderia os gols que Roger vem perdendo.

Primeiro tempo acabou 0 x 0. Com Roger e o Vitória perdendo alguns gols feitos.

– Aí tem que ser jogada de baba, porra; tem que ser jogada de baba – disse o tal senhor, depois de um dos inúmeros gols perdidos. – Dá um-dois, dá um dois... – dizia ele, falando da famosa tabelinha rápida na entrada da área.
– Brincadeira uma porra dessa, viu? – disse outro.

Apesar do zero a zero e do fantasma de outro empate no Barradão, a torcida aplaudiu o time que saía de campo, reconhecendo o esforço em buscar o gol. O Vitória não está no G4 à toa.

O Vitória veio pro segundo tempo ainda melhor do que no final do primeiro, quando foi mais objetivo. Queria o gol. Bida, que acabara de entrar, quase fez o dele logo no início. O gol iria sair. Tinha de sair. O Barueri estava perdendo e um gol colocaria o Vitória na terceira colocação. E num passe magistral, sublime e poético de Bida, Leandro Domingues matou no peito e mostrou a Roger como é que faz. Chutaço, golaço, um a zero, minha porra.
Filmei o gol. Pelo menos foi o que achei na hora. Só em casa, editando, que percebi que não filmei. Dessa vez foi eu quem perdi o gol.

Por causa disso, inicialmente, achei que não valia a pena fazer o vídeo (clique aqui). Sem o gol não teria graça, mas depois mudei de idéia. Trabalhar com o que tem é o que deve ser feito. Carpegiani tá fazendo assim e tá no caminho certo.

Menção honrosa para minha irmã, que estreou com pé quente e para ótima atuação do goleiro Gléguer, que estreou da mesma maneira.
O lance agora é G3.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vitória X Atlético MG (o Galo e uma galinha)

O jogo seria difícil. Era contra o líder do campeonato e com o Vitória desfalcado dos seus três zagueiros titulares. Zagueiros estes que vêm fazendo um ótimo campeonato.

Como sempre, mesmo com chuva, muitas crianças no estádio.
Na parte de cima a torcida do Atlético MG era escoltada pela polícia até o local dos visitantes. Um princípio de confusão começa. Eu estava no terceiro degrau, bem em cima, e pude ver a confusão entre as pernas dos torcedores dos degraus acima. O clássico Coturnos X Chinelos começava. Um torcedor do Vitória passa por mim apressado, descendo os enormes degraus como se estivesse fugindo de algo. Algo de farda e cassetete na mão. Subiu só pra procurar confusão, fez sua bagunça e desceu correndo. A vontade que dá é de dar um empurrão pra ele descer capotando arquibancada abaixo... Mas é só uma vontade.

Também não filmo briga. Gasta a bateria da filmadora e a fita custa caro. Tem coisas mais interessantes pra filmar, como um torcedor do Bahia no meio da torcida do Atlético MG. Parecia uma galinha no meio dos galos. Toda saltitante. Como não tem time pra torcer tem que ir ciscar no Barradão.
– Ah, no jogo do Bahia com o Fast também tinha torcedor do Vitória que eu vi – disse um amigo meu tricolor.
– No do Bahia com o Amazonense também – disse outro.
– Tem vídeo disso? – perguntei.
– Não...
– O meu tem. (clique aqui)

O Vitória começou mal. Parecia que a zaga improvisada daria mole a qualquer hora. E até deu um, mas, assim como Jesus, Viáfara salva.
O Atlético MG permanecia no campo de ataque. O Vitória parecia desconfiado da zaga improvisada e não arriscava muito. Só com o passar dos minutos, ganhando mais confiança, que o time passou a dominar o meio de campo. Eu queria que o primeiro tempo terminasse logo, pois depois da conversa nos vestiários o Vitória só poderia melhorar. Carpegiani estava vendo os erros. Concertaria.
No finalzinho, um delírio frustrante com um gol anulado. Realmente estava impedido, mas se fosse, por exemplo, do Corinthians, desconfio de que não seria anulado.

Mesmo sem jogar bem o Vitória saiu aplaudido de campo.
A conversa nos vestiários funcionou e o time voltou outro pro segundo tempo. Ficou mais tempo no campo de ataque, buscou o gol, criou jogadas... Mas a porra da bola não entrou. Roger bateu um pênalti mais de perto que um pênalti; escolheu o canto, chutou, venceu o goleiro, mas a bola caprichosamente foi na trave.
– Se essa não entrou, não entra mais nenhuma hoje – disse um torcedor do meu lado, que também reclamou muito de Apodi, inclusive dizendo que a culpa dele tá jogando mal é da escova que ele fez no cabelo.
Apodi não voou tanto nesse jogo, mas seus cabelos...

Acredito que Apodi não jogou bem também por conta do problema da zaga. A zaga não comprometeu em nada, não cometeu erros fatais, porém deixou o time receoso.
O saldo positivo foi que em outra ocasião de desfalque o time vai estar mais confiante.
Apodi foi substituído e um início de vaia pra ele começou, mas foi logo engolido por aplausos e gritos de “uh, é Apodi” por parte dos torcedores mais sensatos.

O Vitória jogou bem. Merecia ter ganhado e um empate, mesmo em casa, da forma que foi, não é um resultado pra se lastimar.
– Ah, o Vitória se fudeu – disseram os torcedores do time de Paulo Carneiro no dia seguinte.
Como o Bahia só dá vexame, é uma alegria enorme pra eles o Vitória empatar em casa.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vitória X Santos (peixe de chocolate)

Levei de novo meu sobrinho torcedor do Bahia. Como já disse, faço isso pelo menino, pra ele ver um jogo de primeira, com jogadores de primeira, com times de primeira... Além de tudo, ele foi pé quente contra o Grêmio.

Como já disse também, ele joga no infantil do Bahia e viu o time do Santos por lá no Fazendão, treinando pro confronto com o Vitória.
“Mancini fez um golaço”, disse ele, comentando sobre um coletivo em que o treinador (ex) do Santos participou.

Também levei Cezar, um amigo que não ia ao Barradão desde 2004.
– Você não é pé frio, não, né?
– Tá maluco... – respondeu ele.

Chegamos cedo e pela primeira vez na história dessa porra eu não peguei fila pra entrar pela portaria do “Sou mais Vitória”.

O jogo começou.
– O jogo vai ser duro – disse um senhor do meu lado – Mancini conhece o Vitória.É um a zero Vitória – completou.

E em três minutos esse um a zero apareceu. Vacilo clássico de goleiro X astúcia clássica de atacante. Foi dar um chutão, furou, atacante atento, gol.Um a zero. Torcida comemorando e meu sobrinho disse:
– O Santos vai virar.
– Quem vai virar é você, que vai virar Vitória – respondi.

Um gol dessa forma, no início do jogo, além de mexer com o emocional de um time, desmonta todo o seu esquema tático. E isso ficou evidente. O Peixe ficou sem ar, balançando pra lá e pra cá, até que aos 15 minutos Leandro Domingues fez um lançamento primoroso para Roger, o autor do primeiro gol, que chutou para uma boa defesa de Douglas, o goleiro do Santos, o redimindo da merda que fez no lance do primeiro gol. Porém, ele deu rebote e a bola voltou pra Roger, que se redimiu da merda que fez no primeiro chute. Dois a zero.

– Assim vai ser mole – disse o senhor do meu lado, que antes tinha dito que ia ser duro. O que ele não imaginava, nem ninguém ali, é que seria tão mole.

Aos 24 minutos, outro contra ataque fulminante e terceiro gol do Vitória. Três a zero. Aos 28, quatro a zero com um gol Victor Ramos, zagueiro da divisão de base.
– Acabou o jogo. Acho até que vou sair do estádio. Lá fora posso tomar uma cerveja e ver o resto do jogo pelo rádio – brincou Cezar.

O Santos tremia em campo. Tentou sem perigo por algumas vezes, mas nada acontecia. O Vitória, naturalmente, diminuiu o ritmo depois do chocolate que dava. O Santos continuou tentando e conseguiu um pênalti no último lance. Quatro a um. Logo depois da cobrança do pênalti o juiz apitou o fim do primeiro tempo. Os aplausos da torcida do Santos pro golzinho nem foram ouvidos, pois foram abafados pelos aplausos da torcida do Vitória, que aplaudia o time que saia de campo.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.

Segundo tempo começou e como era de se esperar, o Santos veio pra cima. O gol no final do tempo anterior deu um ânimo extra aos jogadores, que numa falta cobrada ao 16 minutos, chegou ao segundo gol. Quatro a dois.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.

A torcida do Vitória não se abalou muito, mas o time, um pouco, e num rápido contra ataque, a bola chegou na cabeça de Kleber Pereira. Graças a uma defesa milagrosa de Viáfara, o Santos não fez quatro a três. A torcida então sentiu o baque.
– O time relaxou – gritou um torcedor.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.

O Vitória passou a errar passes no meio de campo e o Santos passou a gostar do jogo.
O clima ficou tenso. Um quatro a três seria emoção demais.
– Tomara que essa porra acabe logo – disse Cezar.

Mas o Vitória tem uma coisa que nenhum time tem. Apodi. Com Apodi, as chances do Vitória estar no campo de ataque são maiores. O time recuperou o fôlego, recuperou o meio campo e voltou a atacar. Criou boas chances e conseguiu um pênalti onde Leandro Domingues, que deu o passe para três dos quatro gols, converteu. Cinco a dois. Nem meu sobrinho falou mais nada. O chocolate já estava escancarado. Cinco minutos depois, Jackson, que acabara de entrar, fez o dele depois de quatro meses parado. Primeiro ele perdeu um gol de cara, chutando pra fora, mas logo depois, ele começou uma jogada tocando pra Roger e correndo pra receber em velocidade, cabeceando de forma fulminante. Seis a dois.

Veja aqui o vídeo do jogo. Não consegui filmar todos os gols (foram muitos), mas tem boas cenas.

Ironia do destino: Mancini pediu demissão do Vitória, mas no primeiro confronto depois disso, o Vitória foi lá e “demitiu” Mancini. Ele achou que conhecia o Vitória, mas na verdade era o Vitória que o conhecia.

Cezar disse:
– Rapaz, quando o juiz apitar, dê um zoom pra filmar Mancini de perto que você vai ver um cara se aproximando dele com a rescisão e uma caneta.

Depois disso o Santos ficou entregue e o Vitória perdeu gols sucessivos. Poderia ter sido nove ou dez a dois. Apodi infernizou o ataque do time que o desprezou no ano passado. Não tem como ele não correr, é só ele pegar na bola que vinte mil pessoas começam a gritar “vai, Apodi, vai, Apodi, vai, maluco, vai, Apodi...”. E ele vai.
Apodi é ídolo. Devia ter uma estátua dele no Barradão. Só assim pra ver ele parado.

Os torcedores do Bahia torcem contra Apodi, fazem piadas sobre ele, tentam denegrir, invejosamente, o nosso velocista... Mas a gente entende. Os caras estão acabados.
De vez em quando eu leio blogs alheios de torcedores do Bahia (assim como leio blogs de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Internacional...) e os textos dos torcedores do Bahia são o reflexo da nostalgia. Os temas são sempre “ah, como era bom aquele tempo, 30 anos atrás...”, ou de revolta por goleadas sofridas contra Américas da PQP, Ipatingas e Figueirenses.

E Paulo Carneiro vestindo a camisa do Bahia foi a coisa mais estapafúrdia do ano. O termo “vestir a camisa da empresa” pode se empregar em qualquer ocasião, menos em um time de futebol, onde a camisa é o que veste, sobretudo, o torcedor. Mudar de time quando criança, tudo bem, é normal, é aceitável, o indivíduo está começando a entender as coisas, vendo quem ganha, quem perde e assim passa a gostar de um time ou de outro. Conheço tricolores filhos de rubro-negros e vice-versa. Mas virar a folha depois de velho é lamentável. A torcida do Bahia ainda aceita esse tipo de coisa.
Quando ele foi anunciado, eles repudiaram:
– Um rubro-negro no meu Baêa?! Nem com a porra – diziam os tricolores.
Aí ele deu uma entrevista cheia de pompa, usando uma linguagem moderna de marketing, falando em números, falando do seu passado...
– O cara é um bom administrador, hoje o futebol moderno precisa disso... – mudaram o discurso.
Chega a ser decepcionante ver em como acreditam em tudo. É como lotar a Fonte Nova pra recepcionar Viola em 2005, com 37 anos de idade. Cinqüenta mil foram ver Kaká no Real Madri; mais que isso foi ver Viola. Muitos tricolores ainda se vangloriam desses números.
De qualquer forma, já que Paulo Carneiro fez isso de vestir a camisa, ou ele devia ter feito um regime ou ter pedido à empresa que confecciona aquele pano uma XXG.

Enquanto isso, muitas crianças no Barradão comemoravam, felizes, rindo contentes por causa do seu time. Deve ser por isso que meus amigos torcedores do Bahia andam tão nervosos. Os torcedores mirins do seu time estão sumindo. Sem crianças nos estádios não existe felicidade. Elas estão querendo ir ver o jogo do Vitória.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Vitória X Santo André (Na traaaaave)

Cheguei ao Barradão sem engarrafamento, jogo do Brasil acabara de terminar, muita gente ainda voltando do São João, parei numa vaga boa, sem stress, tudo bem tranqüilo até eu enxergar a fila do Sou Mais Vitória, que mais uma vez era dez vezes maior do que a fila de quem acabou de comprar o ingresso. É meu quinto jogo como associado, é a quinta fila quilométrica que pego e é a quinta vez que flagro torcedores de primeira viagem que achavam que com a compra do dito cujo não pegaria mais fila pra entrar:
– Essa é a fila do Sou Mais Vitória? – perguntou um torcedor acompanhado dos dois filhos e com a carteira de associado na mão.
– É – respondi.
– Do Sou Mais Vitória? – perguntou de novo, sem querer acreditar.
– Isso.
– Que porra é essa? – ficou a se perguntar.
Mas essa é mesmo a pergunta que a diretoria do Vitória tem que responder:

“Que porra é essa?”

Além do mais, muitas queixas de torcedores que ainda não receberam a camisa oficial do time, prometida na compra do Sou Mais Vitória. Eu mesmo fiz minha carteira em fevereiro e até hoje não recebi a camisa, inclusive a minha já está vendida, pois acho o padrão muito feio. As marcas de patrocínio (Tim, MCS, Insinuante, Lupo, Habibs) estão tendo o mesmo peso gráfico que o escudo do time. Tudo do mesmo tamanho. Não dá pra distinguir o que é escudo e o que é marca. Pode ter quantas marcas der, mas que se encontre um equilíbrio no design, deixando o escudo em primeiro plano. Vendi minha camisa (que ainda não recebi, repito) por 100 reais. A pergunta que fica agora é outra. Ou melhor, são duas:

“Que porra é essa?” e “Caso mude o patrocinador do material esportivo, os associados que ainda não receberam a camisa irão receber o padrão velho ou o novo?”.

Sonhamos cheios de esperança com o bom senso da diretoria e do departamento de marketing.

Escolher o lugar pra ver o jogo é uma loteria. Nunca se sabe que tipo de torcedor vai estar do seu lado. Pode ser um calado, pode ser um que fala o tempo todo, um que xinga, um que fuma... Sentei do lado de um que era o pensamento negativo em pessoa. Toda bola que o Vitória pegava ele jogava praga. Apodi pegava na bola, avançava pela lateral e ele dizia:
– Lá vai esse fazer merda, repare no que tô dizendo, ó a merda...
Apodi toca pra Leandro Domingues:
– Ahh, aí fudeu, vai dar em nada, vai perder a bola, repare...
Leandro toca pra Roger, que vai pra cima:
– Vixe, esse é pior ainda, vai fazer nada, essa carniça...
Roger chuta pra fora.
– Não falei... Tô dizendo...
Toda jogada que eu Vitória armava, o cara secava. A palavra mais singela que ele disse foi quando Uellinton errou um passe:
– Que indisplicência da porra, viu? Esse Uellinton é muito indisplicente.
Foi o primeiro tempo todo assim. A pergunta que fica agora é outra:
O Vitória não fazia o gol por que o cara era negativo ou o cara era negativo por que o Vitória não fazia o gol?

Fim do primeiro tempo. Zero a zero.

Resolvi sair do lado do cara negativo e, como sempre faço no segundo tempo, me posicionei bem atrás do gol adversário. Geralmente ali, colado no muro, ficam os torcedores mais exaltados, que passam o jogo todo xingando o goleiro adversário, como nesse vídeo do jogo contra o Goiás pelo campeonato de 2008 (nunca mais encontrei essa figura lá), mas dessa vez ali só tinha crianças. Todas coladas no alambrado.
“Aqui vai ser pensamento positivo o tempo todo, o Vitória vai brocar”, profetizei.

Porém, as crianças, mesmos as mais novas, xingavam o goleiro como se fossem adultos. “Viado”, “frangueiro” e “vai tomar no c...” eram as mais ditas.

O Vitória vinha pra cima, rondava a área e um guri do meu lado ficava gritando, com um fôlego de atleta:
– Ó o mole da zaga, a zaga vai dar mole, vai dar mole...
E numa bola dividida, Elkeson, que era criança quando entrou no Vitória, acreditou na jogada e no mole que a zaga iria dar, deu um drible, avançou e chutou pra marcar um a zero. Apesar de estar com a câmera ligada, não consegui filmar o gol. À medida que Elkeson ia avançando, os pirralhos começaram a balançar o alambrado, me obrigando a ajeitar a filmadora bem na hora do chute... Só captei a comemoração.
Vitória um a zero. Era pouco contra o insosso Santo André, mas eram três pontos a mais na tabela.

Outro ataque do Vitória e numa sobra, Apodi chutou de longe, a bola passou perto, mas saiu pela linha de fundo. Tiro de meta pro Santo André. O gandula “finge” se atrapalhar com a reposição de bola, o goleiro do Santo André se irrita e devolve todos os xingamentos que recebia das crianças no pobre do gandula, que também era uma criança. O juiz então veio dar uma bronca no gandula e quando percebo, vem chegando também Marcelinho Carioca. Como só filmo o ataque rubro-negro, a câmera estava desligada. Liguei na pressa, mas não consegui filmar Marcelinho Carioca, metido a valente, xingar o gandula de “filho da p...”, mandar ele ir “tomar no c...” e dizer, com gestos, que depois acertava as contas com ele.
Quando Vanderlei Luxemburgo o chamou de “moleque” em um programa de televisão pra todo o Brasil ele ficou com o rabinho entre as pernas. Agora pra cima de um gandulinha vem todo valentão... O menino, coitado, ficou todo cabisbaixo.

A polícia chegou e mandou todo mundo sair do alambrado. Eu e as crianças. Tive de subir um tanto pra poder filmar sem a interferência da grade.

O Santo André não desistiu hora nenhuma, queria o gol de empate e a chance apareceu: de forma desnecessária, Magal fez pênalti no meia Rodrigo Fabri, aos 32 minutos do segundo tempo. Um a um naquela altura do jogo seria o pior resultado. O Santo André iria se fechar mais ainda, o Vitória teria que sair de vez, poderia ficar vulnerável e assim até sofrer uma virada no contra-ataque. Mas me lembrei que quem iria bater o pênalti era Marcelinho Carioca, o chatão otário covarde.
– Vai perder – falei pra um cara que tava do meu lado, rezando para todos os santos. Menos pra Santo André, imagino.

Eu estava com tanta certeza, com tanto pensamento positivo, que rompi com a minha superstição e liguei a câmera pra filmar um “ataque” do time adversário. Sabia que o idiotão iria perder. Sabia que o gandula seria vingado e iria rir por último.

Não filmei o primeiro gol do Vitória, mas tenho uma ótima imagem do gol não feito de Marcelinho Carioca, renovando a torcida e o time, que foi pra cima logo em seguida e fez mais dois gols, abrindo três a zero. Tudo devidamente filmado. Clique aqui e veja o vídeo desse jogo.

Depois o Santo André diminuiu fazendo um golzinho, mas precisaria de um milagre pra reagir, ainda mais depois que Neneca, o goleiro, fez lambança e cometeu um pênalti em Roger. A polícia deixou os torcedores colarem de novo no alambrado. Roger mostrou a Marcelinho Carioca como é que faz e fechou o placar. Vitória 4 X 1 Santo André e a terceira colocação na tabela.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vitória X Grêmio (aos 48 vale 3)

Meu cunhado é torcedor do Bahia e com isso meus quatro sobrinhos também são. Luca, o único menino, tem 11 anos e joga no infantil do Bahia. Às vezes treina no Fazendão.
– Quer ir ver Vitória X Grêmio? – convidei.
– Tá maluco, pisar no Barralixo, cheio de urubu voando – disse ele, soltando todas as velhas piadas tricolores.
Seu pai entrou na conversa e uma breve discussão Vitória X Bahia começou. Eles fizeram todo aquele sonolento discurso de sempre, que na década de 70 era diferente e blá, blá, blá... Esperei eles terminarem, bocejei e disse:
– Luquinha, você tem 11 anos e seu pai já te levou pra Fonte Nova e Pituaçu inúmeras vezes, mas ele já te levou alguma vez pra ver um jogo da primeira divisão?

Foi o único argumento que precisei. O menino fica vendo pela televisão jogos do Manchester, Barcelona, Milan, Real Madri e quando vai pro estádio, é obrigado a ver Ipatinga, Brasiliense, Bahia...
– Mas vou de camisa azul – exigiu ele.
Não vi problemas.

O jogo começaria às 16h. Saímos às 14:20, pegamos o clássico engarrafamento e às 15:45 conseguimos estacionar. Às 15:55 pegamos outro engarrafamento. A velha e boa e fila do “Sou Mais Otário”. Apesar de já ter pago pelo ano inteiro, o associado do Sou Mais Vitória é obrigado a ficar em uma enorme fila pra entrar no Barradão, sendo que o principal motivo dele se associar foi justamente para não pegar fila alguma. O ruim de ficar nessa fila, além do sol na cara, foi que perdemos 5 minutos do primeiro tempo. O lado bom foi que não tivemos de ouvir “vai buscar Dalila...”. Mais chato que essa música só torcedor do Bahia. E por sinal, como de costume, tinham vários deles na torcida adversária.

Torcedor do Bahia tem tudo pra ser um cara feliz. Durante o ano ele torce pro São Paulo, pro Grêmio, pro Flamengo, pro Internacional, pro Cruzeiro, pro Palmeiras...
– Seu Vitória vai levar fumo do Grêmio – diziam antes do jogo.
Os torcedores do Bahia estão muito tensos. Qualquer conversa sobre futebol já começam gritando, desesperados por atenção.
Encontrei um amigo meu depois da goleada sofrida contra o Vasco e o cara me xingou todo.
– Tomou no cu, filho da puta, viado, se fudeu, seu Vitória de merda, sua puta...

Eu convenci Luca a ir pro jogo dizendo que ele veria um jogo do Grêmio, mas o decepcionei. Só o Vitória jogou. Ele, de camisa azul, torcia baixinho, mas sem muito efeito.

O Vitória atacou o tempo todo, mas apesar das constantes investidas, a zaga do Grêmio parecia intransponível. Zagueiros gigantes. E se passasse por eles, ainda tinha de passar pelo goleiro gigante, recém convocado pra seleção brasileira.

Mas gigante mesmo é Apodi. Apodi bota pra f... Correu, driblou, deu canseira, tomou faltas e fez um jogador do Grêmio ser expulso.

Mesmo com um a mais, o Vitória não finalizava com tranqüilidade. Se manteve no ataque, mas o gol não saía. O tempo foi passando e o zero a zero foi ficando pesado para o Vitória. O Grêmio jogou o tempo todo pensando nele.

Empatar em casa, jogando bem, com um a mais, era perder dois pontos e não ganhar um. Mas com o Vitória cada vez mais ofensivo, em dois momentos passei a achar o zero a zero um bom resultado. Aproveitando o time aberto, o Grêmio, em dois contra-ataques rápidos, fez Viáfara ser um dos heróis da partida. Duas fantásticas defesas. Uma delas aos 43 do segundo tempo.
“Melhor acabar logo o jogo”, cheguei a pensar.

Mas aos 48 minutos Apodi tocou a bola pra Leandro Domingues, que durante o jogo todo tentou fazer gol de cabeça, pelo meio, linha de fundo, tabelando e nada de conseguir furar o bloqueio gremista.
No intervalo do jogo, um torcedor comentou alto que pra furar aquela zaga só chutando de fora. Leandro seguiu o conselho, chutou de longe e a bola foi indo, indo, indo, indo, indo... “e iu”. Não foi um gol. Foi um golaço. Aliás, não foi um golaço; foi um golaço aos 48 do segundo tempo. Veja o vídeo aqui.

O jogo terminou 1 X 0, nove pontos, a segunda colocação na tabela e inúmeros tricolores frustrados.