terça-feira, 15 de setembro de 2009

Vitória X Palmeiras (valeu, São Marcos)

No meio da semana eu já tinha ido ao jogo da seleção e durante a partida cheguei a conclusão de que um jogo do Vitória é bem mais emocionante. Algumas coisas são até semelhantes, pois em ambas tem torcedor do Bahia fazendo papel de otário.

No jogo contra o Chile, sentei colado com a torcida chilena e a torcida do Bahia, que por estar vestida com as mesmas cores do Chile, era motivo de piada por parte dos hermanos:
– Vocês são chilenos? – perguntava um.
Como ali era a única forma do tricolor baiano aparecer pro Brasil, eles tentaram durante o jogo um grito de “Bahia”, mas foram humilhantemente calados pelas vaias que ecoaram pelo estádio de Pituaçu.

No Barradão eles são mais covardes e foram de verde. Revoltados pela humilhação sofrida no dia anterior, quando tomaram de 4 x 1 da Portuguesa, os torcedores do Bahia foram torcer pro Palmeiras, acreditando que assim poderiam sentir um pouquinho do doce sabor da vitória. Tentaram de novo ecoar alguns gritos, porém, mais uma vez, foram abafados pela massa rubro-negra que enchia o estádio.

Jogo contra o líder do campeonato é sempre apreensivo, mas no banheiro, mijando antes do jogo, enquanto um torcedor do Palmeiras, ou melhor, do Bahia, mijava, um outro rubro-negro disse:
– Esse palmeirense tá aqui mijando, mas tem um palmeirense que sempre que joga contra o Vitória se caga todo...
– Quem é? – perguntou um outro anônimo.
– Marcos – respondeu, gerando risada de todos, menos do torcedor indefinido.

O fato do goleiro palmeirense se cagar contra o Vitória (lembrando o 7 x 2 e o rebaixamento anos atrás) geraria outras risadas aos 19 minutos do primeiro tempo. Ramon cruzou, ele foi tirar de forma estabanada, mirou na moleira de Uéliton e um a zero Vitória. Veja o vídeo exclusivo aqui.

O Vitória, que antes do gol já tinha metido uma bola na trave com Roger, continuou pressionando e aos 36 minutos, o nome do time nessa fase da competição perdeu o gol mais feito de todos os babas do fim de semana. Na jogada, Marcos cagou de novo, dessa vez numa simples saída de bola, e a dita cuja sobrou pra Berola que tentou limpa-lo, mas, talvez pelo goleiro já estar todo melado, não conseguiu.

– Que porra! Lá no meu baba, que eu PAGO pra jogar, se eu perder um gol desse eu sou tirado na hora. Esse cara GANHA pra isso e perde o gol?! Putaquepariu, vá tomar no c... – gritava um torcedor do meu lado, fortalecendo as palavras em caixa alta.

Pior que ter perdido esse gol foi tomar um logo depois, o que fez a torcida se irritar mais ainda desse gol perdido. Mais até do que com o gol sofrido:
– Se tivesse feito dois a zero o jogo era outro... Era pra chegar chutando. Porra! – reclamava o mesmo, que fez esse discurso durante todo o intervalo.

Um a um e fim do primeiro tempo.

O segundo tempo começou e o Palmeiras parecia querer ganhar. Voltou melhor, mas como o goleiro do Vitória não se caga diante deles, defendeu as duas jogadas dos paulistas. Depois disso, pra desespero dos tricolores, só deu Vitória e aos 25 minutos a bola sobrou pro cara que tinha perdido o gol feito e, dessa vez, ele não repetiu o erro. Neto Berola, dois a um Vitória.

Logo depois, como se só estivesse ali até concertar o erro, Berola saiu do jogo dando lugar a Derlei, que estreava. Aos 35 ele mandou perto, mas aos 39 mandou pra longe. Pra longe do alcance de Marcos, que até salvou o que seria um gol olímpico de Ramon, mas ficou ajoelhado dentro do gol, vendo o estreante fazer o terceiro rubro-negro.
“É, o Vitória é foda”, pensou o goleiro alviverde.

Depois o Palmeiras fez um golzinho sem graça, mas muitos tricolores já deixavam o estádio.

Vitória 3 X 2 Palmeiras.

Perder em casa, em um jogo da segunda divisão, é uma coisa.
Ser humilhado em casa com um chocolate, em um jogo da segunda divisão, com o quarto gol de cobertura, é outra coisa.

Ganhar em casa, em um jogo da primeira divisão é uma coisa.
Ganhar do líder, em um jogo da primeira divisão, no mesmo fim de semana que o outro é humilhado com um chocolate, com o quarto gol de cobertura, é outra coisa.

Moro do lado de um escola infantil e nessa segunda-feira, às sete da manhã, os gritos de “nêêêêêêgooooo, nêêêêêêgooooo” entoados pelas crianças soavam como uma divertida melodia. Fim de semana acachapante.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vitória X Cruzeiro (empate vitorioso)

Chuva da porra, horário de filha da puta, time sem emplacar, amigo desistindo de ir, mulher insistindo pra não ir... mas eu fui. Às 18 em ponto parei meu carro no estacionamento e fiquei esperando o temporal passar. Deu 18:15 e a chuva só aumentou. O rádio dizia que o campo estava encharcado. “Se a chuva não passar, vou voltar pra casa”, pensei. Deu 18:20, a chuva não passou e a rádio entrevistou um torcedor de dentro do estádio:
– E aí, muita chuva, né? – perguntou o repórter.
– Rapaz, muita chuva, mas eu queria pedir ao torcedor do Vitória que estiver me ouvindo agora, que ele venha pro jogo, que enfrente a chuva, porque saiba que o Vitória tá nessa situação porque ele joga na primeira divisão do campeonato brasileiro, então só tem jogo difícil e tem que ser assim, porque a coisa é na raça, pois pra tá aqui é pra jogar com os melhores, com Internacional, com Flamengo, com Cruzeiro, Palmeiras, Corinthians... então, torcedor, você que tá me ouvindo, venha... – o repórter ficou mudo e eu abri a porta do carro.

Coloquei a filmadora debaixo do meu eficiente casaco de chuva e fiquei na fila do nada eficiente Sou Mais Vitória. O estádio bem mais vazio que o habitual e ainda assim tinha fila.
Entrei no estádio e a chuva, suavemente, passou.

Mesmo entrando com o jogo já em andamento, fui ao banheiro. Não consigo ver o jogo com vontade de mijar. Mijei, sentei e gol do Cruzeiro. Três minutos de jogo. No lamaçal, jogadores escorregando, drible doido surtindo efeito, um maluco chutou, Viáfara fez seu milagre nosso de cada jogo, a defesa fez sua merda nossa de cada jogo, a bola sobrou pra outro maluco que, livre, quase não precisou chutar, pois a bola bateu nele e foi entrando. Um a zero Cruzeiro. A nação rubro-negra não se intimidou e deu apoio aos seus soldados:
– É primeira divisão, porra, é isso mesmo, vamo virar essa porra – gritou o cara do meu lado.
Quando ele se sentou, perguntei:
– E aí, man, beleza... Por acaso foi você quem deu uma entrevista no rádio agora a pouco?
– Não, porquê?
– Nada não...

E o Vitória partiu pra cima. Nino Paraíba teve a difícil missão de substituir um ídolo em um jogo difícil e se saiu muito bem. Rápido como Apodi, deu canseira na boa defesa do Cruzeiro. O Vitória foi com tudo: pelo meio, pelo lado esquerdo, pelo lado direito, de falta, de escanteio, de cabeça, de gol impedido, com Ramon, Leandro, Roger, Neto Berola (que acredito que vai ser o nome do Vitória nessa fase da competição), mas a bola não entrava.
– Esse Roger é uma merda. Que porra... Ele come quem nessa direção? Só pode comer alguém? – desabafou um abafado, impaciente com os constantes gols perdidos de Roger.

Fim do primeiro tempo. Um a zero pro Cruzeiro. Pensei como seria o dia seguinte, a segunda-feira, com meus amigos do trabalho felizes com o Bahia. Quando o Bahia perdeu o CampeoNeto Baiano (pela oitava vez seguida), eles fingiram desprezo; aí a merda ganha um joguinho na segunda divisão e eles fazem carreata. Imaginei como seria o dia seguinte se aquele placar de um a zero persistisse.

Começou o segundo tempo e o Vitória continuou melhor em campo. Mas foi o Cruzeiro quem fez o segundo gol. Pênalti, gol e dois a zero.
“Dá pra empatar”, pensei com fé e quando vi a bola cruzar na área, bem na minha frente (veja aqui no vídeo exclusivo), vi que ela ia pra cabeça de Roger. Lembrei do gol contra o Flamengo no Engenhão nesse ano e pensei “esse ele vai fazer” e fez. Dois a um, três minutos depois do dois a zero. Faltavam ainda 25 minutos de jogo. “Dá pra empatar”, pensei de novo. E até virar...

O Vitória continuou indo pra cima e o Cruzeiro só tentando os contra-ataques. O Cruzeiro chegou três vezes ao ataque e fez gol em todos. Aos 31, três a um. Foi um banho de água fria, principalmente pelo fato da chuva ter voltado com tudo logo depois desse gol.

Faltavam 14 minutos. Era o mesmo placar pelo qual o Bahia ganhara no dia anterior, também contra um time azul e branco. Pensei até em faltar o trabalho. Se o jogo fosse fora de casa, vá lá... Mas no Barradão é foda.

Aos 38 minutos, a chuva, que passou o jogo todo quieta, anunciava o final melancólico. Faltavam apenas sete minutos e dois gols para pelo menos manter a dignidade. Com a chuva que caía, eu não poderia mais filmar nada para não molhar a máquina e achei melhor ir embora. Desanimado, subi as escadas em direção à saída. Uns dez passos depois que saí do estádio, ouvi o “grande grito” vindo de dentro: GOOOLLLLLL. Primeira vez que eu ouvia um gol de fora do Barradão. Até foi emocionante, mas perguntei o tempo a um torcedor que ouvia pelo rádio, ele respondeu “41”. Um outro que nos ouvia, gritou, revoltado:
– E isso é hora de fazer gol? Perde vinte gols durante o jogo e só faz um gol agora? Que porra!

A chuva engrossou ainda mais, fui andando sozinho em direção ao meu carro, pulando as lamas, cruzando os carros engarrafados e meditando “bora, Vitória, faz mais um gol, só mais um, só mais um, só mais um...”.

Os gritos foram chegando aos poucos, em ondas, até que me dei conta de que só podia ter sido o terceiro gol do Vitória. E era. O buzinaço começou e um cara de uma camionete abriu o vidro só pra me dizer “gol de Roger, gol de Roger”, enquanto a chuva encharcava o interior de seu carro. Gol não: golaço. Desconfio seriamente que pedi tanto “só mais um” que foi por isso que o Vitória não virou o jogo. Se Roger faz aquele quarto gol...
Mas foi um três a três com gosto de vitória, com perdão do trocadilho.
Primeira divisão é assim. Jogo de gente grande. E time grande.

domingo, 16 de agosto de 2009

Vitória X Coritiba (Sulamericana)

Jogo às 19:15 de uma quinta-feira é sacanagem, mas era também a estréia do Vitória em uma competição internacional. Consegui sair às 18:50 do trabalho e só entrei no Barradão aos 25 do primeiro tempo.

Aproveitando que já estava atrasado, aproveitei o fraco movimento no stand do “Sou mais Vitória” e finalmente peguei minha carteira. A camisa oficial, garantiu a funcionária, chegaria, sem falta, em setembro. Fiz a carteira em fevereiro.

Procurando lugar, percebi que o Vitória começou mal o jogo. Em uma tentativa frustrada de contra-ataque, os torcedores perderam a paciência:
– Que é que tá acontecendo com esse Vitória hoje? – gritou um bigodudo.
– Que porra é essa, Vitória? – gritou um careca, amigo do bigodudo.
Sentei atrás de um grupo que não parava de falar. Sentei de propósito para ouvir a conversa. Estádio vazio é bom pra isso.
¬– Vitória tá mal, é? – perguntei.
– Mal? Se tivesse mal tava bom. O Vitória tá um cu...

Outro fator bom do estádio vazio foi que, em uma bola no meio campo, Willian dominou sem perceber que tinha um marcador do Coritiba atrás dele. A torcida junta gritou “LADRÃO”. Willian na hora tocou a bola.
Em outro lance, Apodi estava marcando perto da arquibancada e conseguiu desarmar a jogada, botando a bola pra fora. O careca gritou:
– Boa, Apodi, seu lugar é aí, porra...
Apodi, na hora, olhou na direção da gente.
“Porra, ele ouviu, ele ouviu...”, disseram vários ao mesmo tempo.

O Vitória criou algumas jogadas no final do primeiro tempo. Roger perdeu um gol debaixo da trave e os torcedores, como em todos os temas sobre futebol, não se entendem:
– Ele é muito lento – disse o bigodudo.
Um gordinho defendeu:
– Rapaz, o cara é bom, não é à toa que ele fez nove gols. Isso aqui é primeira divisão, fazer nove gols na primeira divisão não é pra qualquer um...
– Fez nove mas perdeu noventa...

Apodi também tentou chutando de fora, mas o goleiro espalmou e o primeiro tempo terminou zero a zero.

Pro segundo tempo, fui filmar perto do gol do ataque do Vitória. Colado no alambrado estavam dezenas de crianças. Aquelas criaturas inocentes e engraçadas infernizavam Eduardo, o goleiro do Coritiba, que se aquecia pro segundo tempo. “Vai tomar frango”, “Viado” e “Cabeça de rola” era o que o pobre rapaz mais ouvia.
E no primeiro minuto, ele tomou um. Não foi um frango, mas foi gol. Um a zero Vitória. Veja vídeo aqui.

Um cara me viu filmado, se aproximou e começou a falar:
– Rapaz, eu acho que tem que colocar Bida no lugar de Willian e Neto Berola no lugar de Jackson. Tô falando isso porque o torcedor não é burro. Eu jogo bola, você joga bola... A gente entende, né não?

Willian entrou pela esquerda e chutou forte. O goleiro defendeu. Em outro contra-ataque, Jackson chegou atrasado.
O cara ficou pirado:
– Que burrice da porra, viu Ricardo? – disse, gritando para Ricardo Silva, o técnico do Vitória nessa partida. Ele continuou: – Deixar de botar um cara de 20 anos pra colocar um de 40 é foda. Não tá vendo que o ataque tá sem velocidade?

Em outro momento, Gléguer falhou e, mesmo tendo sido o herói do último jogo, o torcedor me faz crer que se Cristo voltasse, que ele seria novamente crucificado:
– Esse Gléguer nunca me passou confiança – vociferava ele, virando pra mim, dizendo: – Esse time vai ter que melhorar. Dando 160 mil reais por mês pra Mancini, esse time vai ter que melhorar...

A torcida toda estava impaciente com Jackson. Ele perdia uma bola e a torcida pedia sua saída. E isso de pegar no pé de Jackson não foi a primeira vez que aconteceu no Barradão, assim como não foi a primeira vez que aconteceu de, justamente nesse momento, Jackson fazer um gol: uma arrancada digna de um garoto que terminou com a bola no canto esquerdo do gol, mostrando pra torcida que o que importa no futebol é a raça. Dois a zero, um bom placar para o jogo de volta.

Depois Jackson ainda quase fez outro, chutando de longe no canto direito, fazendo Eduardo se esticar todo.
Na subida das escadas, ido embora, muitos diziam:
– O velhinho é foda... Eu te falei, o velhinho tem que ser titular...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Vitória X Fluminense (tudo de novo)

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Antes de falar do jogo, uma curiosidade: descobri que no álbum de figurinhas do campeonato brasileiro deste ano, que o Bahia, diferente de outros times, só teve direito a uma página.
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O caminho ao estádio estava vazio. O Dia dos Pais (e as últimas derrotas do time) fez muitos torcedores não saírem de casa. Eu já não pude ir ao jogo contra o São Paulo, pois, mesmo sendo sábado, eu estava trabalhando. Desconfio que deu azar já que foi a primeira derrota no Barradão nesse campeonato. Tinha que ir nesse.

Fui ler o texto que fiz para o jogo Vitória X Fluminense do ano passado e achei que podia copiar e colar aqui. Muitas semelhanças entre os jogos: foi num dia de sol forte, o Vitória jogou com o uniforme número dois, o Fluminense estava na zona de rebaixamento, o Vitória saiu na frente, o Fluminense virou...

No jogo desse fim de semana, Roger deu o passe pra um gol, fez o outro, furou feio em um chute, foi fominha em outro lance, chegou lento em outra jogada... E Apodi tentou, Leandro Domingues tentou, Ramon entrou... Mas o jogo, também como no ano passado, acabou 2 x 2. Veja o vídeo aqui.

– Começou a crise – disseram os tricolores que trabalham comigo, na segunda-feira, um dia depois desse empate com o Fluminense.

Renato Gaúcho, hoje técnico do Fluminense, em 1989 disse que aqui na Bahia só tinha índio. Em compensação levou um ovo de mira laser na moleira. Veja vídeo aqui. E o torcedor do Bahia, como sempre mulher de malandro, ainda vai ao Barradão torcer pra ele. Vi muitos por lá, infiltrados, com crise de abstinência por um jogo da primeira divisão.

No dia do jogo contra o São Paulo, ficamos trabalhando ouvindo o jogo pela internet. Quando o São Paulo fez o gol, houve uma efusiva comemoração por parte da parte tricolor da sala. Eu e André, os únicos rubro-negros, fomos compreensivos com eles e deixamos que festejassem.

No sábado seguinte, trabalhando de novo, foi a vez de ouvir na internet Vila Nova X Bahia. Gol do Vila Nova e a parte rubro-negra humilhou os tricolores da sala ficando em completo silêncio. Eles também ficaram em silêncio, cabisbaixos... Aí eu olhei pra André e dei uma risadinha discreta que foi percebida pelos tricolores. Os caras então perderam o controle:
– Que é que esse torcedor do Vitória quer, meu Deus? – dizia um, menosprezando.
– Perderam de um a zero do São Paulo em casa, não podem falar nada – disse outro, sem senso de proporção.
– Sou bi, sou bi e você é o quê? – perguntou um, em completo desespero.
Respondi a ele que eu era hetero, mas que tudo bem, não tenho preconceitos...
E tudo isso porque eu dei uma risadinha.

Como já falei uma vez aqui nesse blog, inclusive no texto do ano passado do jogo contra o Fluminense, não filmo o ataque adversário. Faço isso por superstição (e pra economizar a fita e a bateria da filmadora), o que é muitas vezes injusto com o goleiro Viáfara, pois nunca registro os seus feitos. Um filho de um amigo meu tem dois colegas na escola que eram Bahia, mas que viraram Vitória por causa de Viáfara e Apodi.

Mas dessa vez a injustiça será com o goleiro que o substitui, Gléguer. Vale a lembrança das fantásticas defesas que fez durante o jogo todo, sobretudo, aos 48 do segundo tempo. Essas, além de espetaculares, valeram tanto quanto os dois gols do Vitória no jogo. O jogo acabou logo em seguida e Gléguer foi injustiçado por toda a torcida, que vaiava o time. Era pra ter aplaudido.

O campeonato é longo. É o campeonato brasileiro da primeira divisão, todo jogo é difícil, portanto, para mim, um empate em casa, faltando metade do campeonato, passa longe de ser algo desesperador. Mas mesmo assim Capergiani foi demitido. Para muitos ali no Barradão, para a imprensa que fatura com isso e para o pobre torcedor do Bahia, o empate em casa era motivo de crise no Vitória.

Quando acabei de escrever esse texto, descobri que o jogo Bahia X Ponte Preta acabou 2 x 2. Empatou em casa e está a um ponto da zona do rebaixamento para a 3º Divisão.
Cheguei ao trabalho e pra respeitar a dor dos meu colegas, não fiquei em silêncio e perguntei com uma certa dose de misericórdia:
– E esse Bahia, hein?
São meus amigos, gosto deles e achei que o silêncio seria muita humilhação. 
 


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Vitória X Coritiba (coxa vermelha e preta)

Domingo de manhã fui pra praia. No caminho, avistei inúmeros transeuntes com camisa do Bahia. Ganharam um jogo no dia anterior, foram pra décima primeira colocação do campeonato da segunda divisão e fizeram carreata com buzinaço. No dia seguinte saíram às ruas orgulhosos do incrível feito. A manchete do jornal Correio estampava “Tricolor voltou”.

Ontem o tricolor voltou ao normal e empatou com o Juventude, dentro de Pituaçu, depois de abrir dois a zero. A manchete do Correio foi “Tricolor dá mole”.

Um amigo meu torcedor do Vitória disse que ia dar um pacote de meia pro Bahia.
¬- Tenho vários pares lá em casa.
Ele disse que ouviu a resenha do jogo e que a reclamação chorosa era “o Bahia não tem meia, o Bahia não tem meia...”.

Já na praia, avistei um grupo jogando bola, fazendo salão. Um deles estava com a camisa do Vitória. Fui dar um mergulho e ao passar por ele, perguntei:
¬– E esse Vitória hoje?
– Vai brocar – respondeu.

Minha irmã nunca foi a um estádio e momentos antes de sair de casa, ela me ligou dizendo que iria também. “Vai dar sorte”, pensei, espantando pra longe a chance dela ser pé-frio.

Era um jogo importante onde o Vitória precisava vencer por dois motivos óbvios: era no Barradão e era a chance de voltar ao G4.

Quando o time empatou com o Atlético MG, os torcedores do Bahia começaram a dizer:
– Agora é ladeira abaixo.

– Depois perdeu pro Corinthians e eles disseram:
– Nunca mais vai voltar ao G4.

Interessante é que antes do campeonato começar, a urucubaca era de que o Vitória ia cair. Agora a urucubaca é de que o Vitória não fica entre os quatro. São uma espécie divertida esses torcedores do Bahia.

O jogo começou com os olhos em Roger. Na verdade, começou com os olhos em Gléguer, o goleiro reserva que substituía, de última hora, o milagroso Viáfara, pegando a torcida de surpresa.
Roger é o artilheiro do time, fez oito gols, mas perdeu 80. Nesses dois jogos citados acima, o Vitória só não somou quatro pontos por causa dele. O time tem criado, tem jogado bem, o coloca na cara do gol, mas ele perde.
– Essa disgraça não joga nada. Desde o início do campeonato que tô dizendo isso... – dizia um revoltado senhor do meu lado.
Uns defendiam o jogador com “o cara é bom, o cara é bom, não fez oito gols à toa...”.
– Oito gols de cagada, com a bola batendo nele e entrando – gritava o revoltado.

Itacaré é o nome mais falado nessas discussões. A torcida quer que ele entre logo, dizendo que ele está com fome de bola e que jamais perderia os gols que Roger vem perdendo.

Primeiro tempo acabou 0 x 0. Com Roger e o Vitória perdendo alguns gols feitos.

– Aí tem que ser jogada de baba, porra; tem que ser jogada de baba – disse o tal senhor, depois de um dos inúmeros gols perdidos. – Dá um-dois, dá um dois... – dizia ele, falando da famosa tabelinha rápida na entrada da área.
– Brincadeira uma porra dessa, viu? – disse outro.

Apesar do zero a zero e do fantasma de outro empate no Barradão, a torcida aplaudiu o time que saía de campo, reconhecendo o esforço em buscar o gol. O Vitória não está no G4 à toa.

O Vitória veio pro segundo tempo ainda melhor do que no final do primeiro, quando foi mais objetivo. Queria o gol. Bida, que acabara de entrar, quase fez o dele logo no início. O gol iria sair. Tinha de sair. O Barueri estava perdendo e um gol colocaria o Vitória na terceira colocação. E num passe magistral, sublime e poético de Bida, Leandro Domingues matou no peito e mostrou a Roger como é que faz. Chutaço, golaço, um a zero, minha porra.
Filmei o gol. Pelo menos foi o que achei na hora. Só em casa, editando, que percebi que não filmei. Dessa vez foi eu quem perdi o gol.

Por causa disso, inicialmente, achei que não valia a pena fazer o vídeo (clique aqui). Sem o gol não teria graça, mas depois mudei de idéia. Trabalhar com o que tem é o que deve ser feito. Carpegiani tá fazendo assim e tá no caminho certo.

Menção honrosa para minha irmã, que estreou com pé quente e para ótima atuação do goleiro Gléguer, que estreou da mesma maneira.
O lance agora é G3.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vitória X Atlético MG (o Galo e uma galinha)

O jogo seria difícil. Era contra o líder do campeonato e com o Vitória desfalcado dos seus três zagueiros titulares. Zagueiros estes que vêm fazendo um ótimo campeonato.

Como sempre, mesmo com chuva, muitas crianças no estádio.
Na parte de cima a torcida do Atlético MG era escoltada pela polícia até o local dos visitantes. Um princípio de confusão começa. Eu estava no terceiro degrau, bem em cima, e pude ver a confusão entre as pernas dos torcedores dos degraus acima. O clássico Coturnos X Chinelos começava. Um torcedor do Vitória passa por mim apressado, descendo os enormes degraus como se estivesse fugindo de algo. Algo de farda e cassetete na mão. Subiu só pra procurar confusão, fez sua bagunça e desceu correndo. A vontade que dá é de dar um empurrão pra ele descer capotando arquibancada abaixo... Mas é só uma vontade.

Também não filmo briga. Gasta a bateria da filmadora e a fita custa caro. Tem coisas mais interessantes pra filmar, como um torcedor do Bahia no meio da torcida do Atlético MG. Parecia uma galinha no meio dos galos. Toda saltitante. Como não tem time pra torcer tem que ir ciscar no Barradão.
– Ah, no jogo do Bahia com o Fast também tinha torcedor do Vitória que eu vi – disse um amigo meu tricolor.
– No do Bahia com o Amazonense também – disse outro.
– Tem vídeo disso? – perguntei.
– Não...
– O meu tem. (clique aqui)

O Vitória começou mal. Parecia que a zaga improvisada daria mole a qualquer hora. E até deu um, mas, assim como Jesus, Viáfara salva.
O Atlético MG permanecia no campo de ataque. O Vitória parecia desconfiado da zaga improvisada e não arriscava muito. Só com o passar dos minutos, ganhando mais confiança, que o time passou a dominar o meio de campo. Eu queria que o primeiro tempo terminasse logo, pois depois da conversa nos vestiários o Vitória só poderia melhorar. Carpegiani estava vendo os erros. Concertaria.
No finalzinho, um delírio frustrante com um gol anulado. Realmente estava impedido, mas se fosse, por exemplo, do Corinthians, desconfio de que não seria anulado.

Mesmo sem jogar bem o Vitória saiu aplaudido de campo.
A conversa nos vestiários funcionou e o time voltou outro pro segundo tempo. Ficou mais tempo no campo de ataque, buscou o gol, criou jogadas... Mas a porra da bola não entrou. Roger bateu um pênalti mais de perto que um pênalti; escolheu o canto, chutou, venceu o goleiro, mas a bola caprichosamente foi na trave.
– Se essa não entrou, não entra mais nenhuma hoje – disse um torcedor do meu lado, que também reclamou muito de Apodi, inclusive dizendo que a culpa dele tá jogando mal é da escova que ele fez no cabelo.
Apodi não voou tanto nesse jogo, mas seus cabelos...

Acredito que Apodi não jogou bem também por conta do problema da zaga. A zaga não comprometeu em nada, não cometeu erros fatais, porém deixou o time receoso.
O saldo positivo foi que em outra ocasião de desfalque o time vai estar mais confiante.
Apodi foi substituído e um início de vaia pra ele começou, mas foi logo engolido por aplausos e gritos de “uh, é Apodi” por parte dos torcedores mais sensatos.

O Vitória jogou bem. Merecia ter ganhado e um empate, mesmo em casa, da forma que foi, não é um resultado pra se lastimar.
– Ah, o Vitória se fudeu – disseram os torcedores do time de Paulo Carneiro no dia seguinte.
Como o Bahia só dá vexame, é uma alegria enorme pra eles o Vitória empatar em casa.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vitória X Santos (peixe de chocolate)

Levei de novo meu sobrinho torcedor do Bahia. Como já disse, faço isso pelo menino, pra ele ver um jogo de primeira, com jogadores de primeira, com times de primeira... Além de tudo, ele foi pé quente contra o Grêmio.

Como já disse também, ele joga no infantil do Bahia e viu o time do Santos por lá no Fazendão, treinando pro confronto com o Vitória.
“Mancini fez um golaço”, disse ele, comentando sobre um coletivo em que o treinador (ex) do Santos participou.

Também levei Cezar, um amigo que não ia ao Barradão desde 2004.
– Você não é pé frio, não, né?
– Tá maluco... – respondeu ele.

Chegamos cedo e pela primeira vez na história dessa porra eu não peguei fila pra entrar pela portaria do “Sou mais Vitória”.

O jogo começou.
– O jogo vai ser duro – disse um senhor do meu lado – Mancini conhece o Vitória.É um a zero Vitória – completou.

E em três minutos esse um a zero apareceu. Vacilo clássico de goleiro X astúcia clássica de atacante. Foi dar um chutão, furou, atacante atento, gol.Um a zero. Torcida comemorando e meu sobrinho disse:
– O Santos vai virar.
– Quem vai virar é você, que vai virar Vitória – respondi.

Um gol dessa forma, no início do jogo, além de mexer com o emocional de um time, desmonta todo o seu esquema tático. E isso ficou evidente. O Peixe ficou sem ar, balançando pra lá e pra cá, até que aos 15 minutos Leandro Domingues fez um lançamento primoroso para Roger, o autor do primeiro gol, que chutou para uma boa defesa de Douglas, o goleiro do Santos, o redimindo da merda que fez no lance do primeiro gol. Porém, ele deu rebote e a bola voltou pra Roger, que se redimiu da merda que fez no primeiro chute. Dois a zero.

– Assim vai ser mole – disse o senhor do meu lado, que antes tinha dito que ia ser duro. O que ele não imaginava, nem ninguém ali, é que seria tão mole.

Aos 24 minutos, outro contra ataque fulminante e terceiro gol do Vitória. Três a zero. Aos 28, quatro a zero com um gol Victor Ramos, zagueiro da divisão de base.
– Acabou o jogo. Acho até que vou sair do estádio. Lá fora posso tomar uma cerveja e ver o resto do jogo pelo rádio – brincou Cezar.

O Santos tremia em campo. Tentou sem perigo por algumas vezes, mas nada acontecia. O Vitória, naturalmente, diminuiu o ritmo depois do chocolate que dava. O Santos continuou tentando e conseguiu um pênalti no último lance. Quatro a um. Logo depois da cobrança do pênalti o juiz apitou o fim do primeiro tempo. Os aplausos da torcida do Santos pro golzinho nem foram ouvidos, pois foram abafados pelos aplausos da torcida do Vitória, que aplaudia o time que saia de campo.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.

Segundo tempo começou e como era de se esperar, o Santos veio pra cima. O gol no final do tempo anterior deu um ânimo extra aos jogadores, que numa falta cobrada ao 16 minutos, chegou ao segundo gol. Quatro a dois.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.

A torcida do Vitória não se abalou muito, mas o time, um pouco, e num rápido contra ataque, a bola chegou na cabeça de Kleber Pereira. Graças a uma defesa milagrosa de Viáfara, o Santos não fez quatro a três. A torcida então sentiu o baque.
– O time relaxou – gritou um torcedor.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.

O Vitória passou a errar passes no meio de campo e o Santos passou a gostar do jogo.
O clima ficou tenso. Um quatro a três seria emoção demais.
– Tomara que essa porra acabe logo – disse Cezar.

Mas o Vitória tem uma coisa que nenhum time tem. Apodi. Com Apodi, as chances do Vitória estar no campo de ataque são maiores. O time recuperou o fôlego, recuperou o meio campo e voltou a atacar. Criou boas chances e conseguiu um pênalti onde Leandro Domingues, que deu o passe para três dos quatro gols, converteu. Cinco a dois. Nem meu sobrinho falou mais nada. O chocolate já estava escancarado. Cinco minutos depois, Jackson, que acabara de entrar, fez o dele depois de quatro meses parado. Primeiro ele perdeu um gol de cara, chutando pra fora, mas logo depois, ele começou uma jogada tocando pra Roger e correndo pra receber em velocidade, cabeceando de forma fulminante. Seis a dois.

Veja aqui o vídeo do jogo. Não consegui filmar todos os gols (foram muitos), mas tem boas cenas.

Ironia do destino: Mancini pediu demissão do Vitória, mas no primeiro confronto depois disso, o Vitória foi lá e “demitiu” Mancini. Ele achou que conhecia o Vitória, mas na verdade era o Vitória que o conhecia.

Cezar disse:
– Rapaz, quando o juiz apitar, dê um zoom pra filmar Mancini de perto que você vai ver um cara se aproximando dele com a rescisão e uma caneta.

Depois disso o Santos ficou entregue e o Vitória perdeu gols sucessivos. Poderia ter sido nove ou dez a dois. Apodi infernizou o ataque do time que o desprezou no ano passado. Não tem como ele não correr, é só ele pegar na bola que vinte mil pessoas começam a gritar “vai, Apodi, vai, Apodi, vai, maluco, vai, Apodi...”. E ele vai.
Apodi é ídolo. Devia ter uma estátua dele no Barradão. Só assim pra ver ele parado.

Os torcedores do Bahia torcem contra Apodi, fazem piadas sobre ele, tentam denegrir, invejosamente, o nosso velocista... Mas a gente entende. Os caras estão acabados.
De vez em quando eu leio blogs alheios de torcedores do Bahia (assim como leio blogs de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Internacional...) e os textos dos torcedores do Bahia são o reflexo da nostalgia. Os temas são sempre “ah, como era bom aquele tempo, 30 anos atrás...”, ou de revolta por goleadas sofridas contra Américas da PQP, Ipatingas e Figueirenses.

E Paulo Carneiro vestindo a camisa do Bahia foi a coisa mais estapafúrdia do ano. O termo “vestir a camisa da empresa” pode se empregar em qualquer ocasião, menos em um time de futebol, onde a camisa é o que veste, sobretudo, o torcedor. Mudar de time quando criança, tudo bem, é normal, é aceitável, o indivíduo está começando a entender as coisas, vendo quem ganha, quem perde e assim passa a gostar de um time ou de outro. Conheço tricolores filhos de rubro-negros e vice-versa. Mas virar a folha depois de velho é lamentável. A torcida do Bahia ainda aceita esse tipo de coisa.
Quando ele foi anunciado, eles repudiaram:
– Um rubro-negro no meu Baêa?! Nem com a porra – diziam os tricolores.
Aí ele deu uma entrevista cheia de pompa, usando uma linguagem moderna de marketing, falando em números, falando do seu passado...
– O cara é um bom administrador, hoje o futebol moderno precisa disso... – mudaram o discurso.
Chega a ser decepcionante ver em como acreditam em tudo. É como lotar a Fonte Nova pra recepcionar Viola em 2005, com 37 anos de idade. Cinqüenta mil foram ver Kaká no Real Madri; mais que isso foi ver Viola. Muitos tricolores ainda se vangloriam desses números.
De qualquer forma, já que Paulo Carneiro fez isso de vestir a camisa, ou ele devia ter feito um regime ou ter pedido à empresa que confecciona aquele pano uma XXG.

Enquanto isso, muitas crianças no Barradão comemoravam, felizes, rindo contentes por causa do seu time. Deve ser por isso que meus amigos torcedores do Bahia andam tão nervosos. Os torcedores mirins do seu time estão sumindo. Sem crianças nos estádios não existe felicidade. Elas estão querendo ir ver o jogo do Vitória.