Domingo de manhã fui pra praia. No caminho, avistei inúmeros transeuntes com camisa do Bahia. Ganharam um jogo no dia anterior, foram pra décima primeira colocação do campeonato da segunda divisão e fizeram carreata com buzinaço. No dia seguinte saíram às ruas orgulhosos do incrível feito. A manchete do jornal Correio estampava “Tricolor voltou”.
Ontem o tricolor voltou ao normal e empatou com o Juventude, dentro de Pituaçu, depois de abrir dois a zero. A manchete do Correio foi “Tricolor dá mole”.
Um amigo meu torcedor do Vitória disse que ia dar um pacote de meia pro Bahia.
¬- Tenho vários pares lá em casa.
Ele disse que ouviu a resenha do jogo e que a reclamação chorosa era “o Bahia não tem meia, o Bahia não tem meia...”.
Já na praia, avistei um grupo jogando bola, fazendo salão. Um deles estava com a camisa do Vitória. Fui dar um mergulho e ao passar por ele, perguntei:
¬– E esse Vitória hoje?
– Vai brocar – respondeu.
Minha irmã nunca foi a um estádio e momentos antes de sair de casa, ela me ligou dizendo que iria também. “Vai dar sorte”, pensei, espantando pra longe a chance dela ser pé-frio.
Era um jogo importante onde o Vitória precisava vencer por dois motivos óbvios: era no Barradão e era a chance de voltar ao G4.
Quando o time empatou com o Atlético MG, os torcedores do Bahia começaram a dizer:
– Agora é ladeira abaixo.
– Depois perdeu pro Corinthians e eles disseram:
– Nunca mais vai voltar ao G4.
Interessante é que antes do campeonato começar, a urucubaca era de que o Vitória ia cair. Agora a urucubaca é de que o Vitória não fica entre os quatro. São uma espécie divertida esses torcedores do Bahia.
O jogo começou com os olhos em Roger. Na verdade, começou com os olhos em Gléguer, o goleiro reserva que substituía, de última hora, o milagroso Viáfara, pegando a torcida de surpresa.
Roger é o artilheiro do time, fez oito gols, mas perdeu 80. Nesses dois jogos citados acima, o Vitória só não somou quatro pontos por causa dele. O time tem criado, tem jogado bem, o coloca na cara do gol, mas ele perde.
– Essa disgraça não joga nada. Desde o início do campeonato que tô dizendo isso... – dizia um revoltado senhor do meu lado.
Uns defendiam o jogador com “o cara é bom, o cara é bom, não fez oito gols à toa...”.
– Oito gols de cagada, com a bola batendo nele e entrando – gritava o revoltado.
Itacaré é o nome mais falado nessas discussões. A torcida quer que ele entre logo, dizendo que ele está com fome de bola e que jamais perderia os gols que Roger vem perdendo.
Primeiro tempo acabou 0 x 0. Com Roger e o Vitória perdendo alguns gols feitos.
– Aí tem que ser jogada de baba, porra; tem que ser jogada de baba – disse o tal senhor, depois de um dos inúmeros gols perdidos. – Dá um-dois, dá um dois... – dizia ele, falando da famosa tabelinha rápida na entrada da área.
– Brincadeira uma porra dessa, viu? – disse outro.
Apesar do zero a zero e do fantasma de outro empate no Barradão, a torcida aplaudiu o time que saía de campo, reconhecendo o esforço em buscar o gol. O Vitória não está no G4 à toa.
O Vitória veio pro segundo tempo ainda melhor do que no final do primeiro, quando foi mais objetivo. Queria o gol. Bida, que acabara de entrar, quase fez o dele logo no início. O gol iria sair. Tinha de sair. O Barueri estava perdendo e um gol colocaria o Vitória na terceira colocação. E num passe magistral, sublime e poético de Bida, Leandro Domingues matou no peito e mostrou a Roger como é que faz. Chutaço, golaço, um a zero, minha porra.
Filmei o gol. Pelo menos foi o que achei na hora. Só em casa, editando, que percebi que não filmei. Dessa vez foi eu quem perdi o gol.
Por causa disso, inicialmente, achei que não valia a pena fazer o vídeo (clique aqui). Sem o gol não teria graça, mas depois mudei de idéia. Trabalhar com o que tem é o que deve ser feito. Carpegiani tá fazendo assim e tá no caminho certo.
Menção honrosa para minha irmã, que estreou com pé quente e para ótima atuação do goleiro Gléguer, que estreou da mesma maneira.
O lance agora é G3.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Vitória X Atlético MG (o Galo e uma galinha)
O jogo seria difícil. Era contra o líder do campeonato e com o Vitória desfalcado dos seus três zagueiros titulares. Zagueiros estes que vêm fazendo um ótimo campeonato.
Como sempre, mesmo com chuva, muitas crianças no estádio.
Na parte de cima a torcida do Atlético MG era escoltada pela polícia até o local dos visitantes. Um princípio de confusão começa. Eu estava no terceiro degrau, bem em cima, e pude ver a confusão entre as pernas dos torcedores dos degraus acima. O clássico Coturnos X Chinelos começava. Um torcedor do Vitória passa por mim apressado, descendo os enormes degraus como se estivesse fugindo de algo. Algo de farda e cassetete na mão. Subiu só pra procurar confusão, fez sua bagunça e desceu correndo. A vontade que dá é de dar um empurrão pra ele descer capotando arquibancada abaixo... Mas é só uma vontade.
Também não filmo briga. Gasta a bateria da filmadora e a fita custa caro. Tem coisas mais interessantes pra filmar, como um torcedor do Bahia no meio da torcida do Atlético MG. Parecia uma galinha no meio dos galos. Toda saltitante. Como não tem time pra torcer tem que ir ciscar no Barradão.
– Ah, no jogo do Bahia com o Fast também tinha torcedor do Vitória que eu vi – disse um amigo meu tricolor.
– No do Bahia com o Amazonense também – disse outro.
– Tem vídeo disso? – perguntei.
– Não...
– O meu tem. (clique aqui)
O Vitória começou mal. Parecia que a zaga improvisada daria mole a qualquer hora. E até deu um, mas, assim como Jesus, Viáfara salva.
O Atlético MG permanecia no campo de ataque. O Vitória parecia desconfiado da zaga improvisada e não arriscava muito. Só com o passar dos minutos, ganhando mais confiança, que o time passou a dominar o meio de campo. Eu queria que o primeiro tempo terminasse logo, pois depois da conversa nos vestiários o Vitória só poderia melhorar. Carpegiani estava vendo os erros. Concertaria.
No finalzinho, um delírio frustrante com um gol anulado. Realmente estava impedido, mas se fosse, por exemplo, do Corinthians, desconfio de que não seria anulado.
Mesmo sem jogar bem o Vitória saiu aplaudido de campo.
A conversa nos vestiários funcionou e o time voltou outro pro segundo tempo. Ficou mais tempo no campo de ataque, buscou o gol, criou jogadas... Mas a porra da bola não entrou. Roger bateu um pênalti mais de perto que um pênalti; escolheu o canto, chutou, venceu o goleiro, mas a bola caprichosamente foi na trave.
– Se essa não entrou, não entra mais nenhuma hoje – disse um torcedor do meu lado, que também reclamou muito de Apodi, inclusive dizendo que a culpa dele tá jogando mal é da escova que ele fez no cabelo.
Apodi não voou tanto nesse jogo, mas seus cabelos...
Acredito que Apodi não jogou bem também por conta do problema da zaga. A zaga não comprometeu em nada, não cometeu erros fatais, porém deixou o time receoso.
O saldo positivo foi que em outra ocasião de desfalque o time vai estar mais confiante.
Apodi foi substituído e um início de vaia pra ele começou, mas foi logo engolido por aplausos e gritos de “uh, é Apodi” por parte dos torcedores mais sensatos.
O Vitória jogou bem. Merecia ter ganhado e um empate, mesmo em casa, da forma que foi, não é um resultado pra se lastimar.
– Ah, o Vitória se fudeu – disseram os torcedores do time de Paulo Carneiro no dia seguinte.
Como o Bahia só dá vexame, é uma alegria enorme pra eles o Vitória empatar em casa.
Como sempre, mesmo com chuva, muitas crianças no estádio.
Na parte de cima a torcida do Atlético MG era escoltada pela polícia até o local dos visitantes. Um princípio de confusão começa. Eu estava no terceiro degrau, bem em cima, e pude ver a confusão entre as pernas dos torcedores dos degraus acima. O clássico Coturnos X Chinelos começava. Um torcedor do Vitória passa por mim apressado, descendo os enormes degraus como se estivesse fugindo de algo. Algo de farda e cassetete na mão. Subiu só pra procurar confusão, fez sua bagunça e desceu correndo. A vontade que dá é de dar um empurrão pra ele descer capotando arquibancada abaixo... Mas é só uma vontade.
Também não filmo briga. Gasta a bateria da filmadora e a fita custa caro. Tem coisas mais interessantes pra filmar, como um torcedor do Bahia no meio da torcida do Atlético MG. Parecia uma galinha no meio dos galos. Toda saltitante. Como não tem time pra torcer tem que ir ciscar no Barradão.
– Ah, no jogo do Bahia com o Fast também tinha torcedor do Vitória que eu vi – disse um amigo meu tricolor.
– No do Bahia com o Amazonense também – disse outro.
– Tem vídeo disso? – perguntei.
– Não...
– O meu tem. (clique aqui)
O Vitória começou mal. Parecia que a zaga improvisada daria mole a qualquer hora. E até deu um, mas, assim como Jesus, Viáfara salva.
O Atlético MG permanecia no campo de ataque. O Vitória parecia desconfiado da zaga improvisada e não arriscava muito. Só com o passar dos minutos, ganhando mais confiança, que o time passou a dominar o meio de campo. Eu queria que o primeiro tempo terminasse logo, pois depois da conversa nos vestiários o Vitória só poderia melhorar. Carpegiani estava vendo os erros. Concertaria.
No finalzinho, um delírio frustrante com um gol anulado. Realmente estava impedido, mas se fosse, por exemplo, do Corinthians, desconfio de que não seria anulado.
Mesmo sem jogar bem o Vitória saiu aplaudido de campo.
A conversa nos vestiários funcionou e o time voltou outro pro segundo tempo. Ficou mais tempo no campo de ataque, buscou o gol, criou jogadas... Mas a porra da bola não entrou. Roger bateu um pênalti mais de perto que um pênalti; escolheu o canto, chutou, venceu o goleiro, mas a bola caprichosamente foi na trave.
– Se essa não entrou, não entra mais nenhuma hoje – disse um torcedor do meu lado, que também reclamou muito de Apodi, inclusive dizendo que a culpa dele tá jogando mal é da escova que ele fez no cabelo.
Apodi não voou tanto nesse jogo, mas seus cabelos...
Acredito que Apodi não jogou bem também por conta do problema da zaga. A zaga não comprometeu em nada, não cometeu erros fatais, porém deixou o time receoso.
O saldo positivo foi que em outra ocasião de desfalque o time vai estar mais confiante.
Apodi foi substituído e um início de vaia pra ele começou, mas foi logo engolido por aplausos e gritos de “uh, é Apodi” por parte dos torcedores mais sensatos.
O Vitória jogou bem. Merecia ter ganhado e um empate, mesmo em casa, da forma que foi, não é um resultado pra se lastimar.
– Ah, o Vitória se fudeu – disseram os torcedores do time de Paulo Carneiro no dia seguinte.
Como o Bahia só dá vexame, é uma alegria enorme pra eles o Vitória empatar em casa.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Vitória X Santos (peixe de chocolate)
Levei de novo meu sobrinho torcedor do Bahia. Como já disse, faço isso pelo menino, pra ele ver um jogo de primeira, com jogadores de primeira, com times de primeira... Além de tudo, ele foi pé quente contra o Grêmio.
Como já disse também, ele joga no infantil do Bahia e viu o time do Santos por lá no Fazendão, treinando pro confronto com o Vitória.
“Mancini fez um golaço”, disse ele, comentando sobre um coletivo em que o treinador (ex) do Santos participou.
Também levei Cezar, um amigo que não ia ao Barradão desde 2004.
– Você não é pé frio, não, né?
– Tá maluco... – respondeu ele.
Chegamos cedo e pela primeira vez na história dessa porra eu não peguei fila pra entrar pela portaria do “Sou mais Vitória”.
O jogo começou.
– O jogo vai ser duro – disse um senhor do meu lado – Mancini conhece o Vitória.É um a zero Vitória – completou.
E em três minutos esse um a zero apareceu. Vacilo clássico de goleiro X astúcia clássica de atacante. Foi dar um chutão, furou, atacante atento, gol.Um a zero. Torcida comemorando e meu sobrinho disse:
– O Santos vai virar.
– Quem vai virar é você, que vai virar Vitória – respondi.
Um gol dessa forma, no início do jogo, além de mexer com o emocional de um time, desmonta todo o seu esquema tático. E isso ficou evidente. O Peixe ficou sem ar, balançando pra lá e pra cá, até que aos 15 minutos Leandro Domingues fez um lançamento primoroso para Roger, o autor do primeiro gol, que chutou para uma boa defesa de Douglas, o goleiro do Santos, o redimindo da merda que fez no lance do primeiro gol. Porém, ele deu rebote e a bola voltou pra Roger, que se redimiu da merda que fez no primeiro chute. Dois a zero.
– Assim vai ser mole – disse o senhor do meu lado, que antes tinha dito que ia ser duro. O que ele não imaginava, nem ninguém ali, é que seria tão mole.
Aos 24 minutos, outro contra ataque fulminante e terceiro gol do Vitória. Três a zero. Aos 28, quatro a zero com um gol Victor Ramos, zagueiro da divisão de base.
– Acabou o jogo. Acho até que vou sair do estádio. Lá fora posso tomar uma cerveja e ver o resto do jogo pelo rádio – brincou Cezar.
O Santos tremia em campo. Tentou sem perigo por algumas vezes, mas nada acontecia. O Vitória, naturalmente, diminuiu o ritmo depois do chocolate que dava. O Santos continuou tentando e conseguiu um pênalti no último lance. Quatro a um. Logo depois da cobrança do pênalti o juiz apitou o fim do primeiro tempo. Os aplausos da torcida do Santos pro golzinho nem foram ouvidos, pois foram abafados pelos aplausos da torcida do Vitória, que aplaudia o time que saia de campo.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
Segundo tempo começou e como era de se esperar, o Santos veio pra cima. O gol no final do tempo anterior deu um ânimo extra aos jogadores, que numa falta cobrada ao 16 minutos, chegou ao segundo gol. Quatro a dois.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
A torcida do Vitória não se abalou muito, mas o time, um pouco, e num rápido contra ataque, a bola chegou na cabeça de Kleber Pereira. Graças a uma defesa milagrosa de Viáfara, o Santos não fez quatro a três. A torcida então sentiu o baque.
– O time relaxou – gritou um torcedor.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
O Vitória passou a errar passes no meio de campo e o Santos passou a gostar do jogo.
O clima ficou tenso. Um quatro a três seria emoção demais.
– Tomara que essa porra acabe logo – disse Cezar.
Mas o Vitória tem uma coisa que nenhum time tem. Apodi. Com Apodi, as chances do Vitória estar no campo de ataque são maiores. O time recuperou o fôlego, recuperou o meio campo e voltou a atacar. Criou boas chances e conseguiu um pênalti onde Leandro Domingues, que deu o passe para três dos quatro gols, converteu. Cinco a dois. Nem meu sobrinho falou mais nada. O chocolate já estava escancarado. Cinco minutos depois, Jackson, que acabara de entrar, fez o dele depois de quatro meses parado. Primeiro ele perdeu um gol de cara, chutando pra fora, mas logo depois, ele começou uma jogada tocando pra Roger e correndo pra receber em velocidade, cabeceando de forma fulminante. Seis a dois.
Veja aqui o vídeo do jogo. Não consegui filmar todos os gols (foram muitos), mas tem boas cenas.
Ironia do destino: Mancini pediu demissão do Vitória, mas no primeiro confronto depois disso, o Vitória foi lá e “demitiu” Mancini. Ele achou que conhecia o Vitória, mas na verdade era o Vitória que o conhecia.
Cezar disse:
– Rapaz, quando o juiz apitar, dê um zoom pra filmar Mancini de perto que você vai ver um cara se aproximando dele com a rescisão e uma caneta.
Depois disso o Santos ficou entregue e o Vitória perdeu gols sucessivos. Poderia ter sido nove ou dez a dois. Apodi infernizou o ataque do time que o desprezou no ano passado. Não tem como ele não correr, é só ele pegar na bola que vinte mil pessoas começam a gritar “vai, Apodi, vai, Apodi, vai, maluco, vai, Apodi...”. E ele vai.
Apodi é ídolo. Devia ter uma estátua dele no Barradão. Só assim pra ver ele parado.
Os torcedores do Bahia torcem contra Apodi, fazem piadas sobre ele, tentam denegrir, invejosamente, o nosso velocista... Mas a gente entende. Os caras estão acabados.
De vez em quando eu leio blogs alheios de torcedores do Bahia (assim como leio blogs de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Internacional...) e os textos dos torcedores do Bahia são o reflexo da nostalgia. Os temas são sempre “ah, como era bom aquele tempo, 30 anos atrás...”, ou de revolta por goleadas sofridas contra Américas da PQP, Ipatingas e Figueirenses.
E Paulo Carneiro vestindo a camisa do Bahia foi a coisa mais estapafúrdia do ano. O termo “vestir a camisa da empresa” pode se empregar em qualquer ocasião, menos em um time de futebol, onde a camisa é o que veste, sobretudo, o torcedor. Mudar de time quando criança, tudo bem, é normal, é aceitável, o indivíduo está começando a entender as coisas, vendo quem ganha, quem perde e assim passa a gostar de um time ou de outro. Conheço tricolores filhos de rubro-negros e vice-versa. Mas virar a folha depois de velho é lamentável. A torcida do Bahia ainda aceita esse tipo de coisa.
Quando ele foi anunciado, eles repudiaram:
– Um rubro-negro no meu Baêa?! Nem com a porra – diziam os tricolores.
Aí ele deu uma entrevista cheia de pompa, usando uma linguagem moderna de marketing, falando em números, falando do seu passado...
– O cara é um bom administrador, hoje o futebol moderno precisa disso... – mudaram o discurso.
Chega a ser decepcionante ver em como acreditam em tudo. É como lotar a Fonte Nova pra recepcionar Viola em 2005, com 37 anos de idade. Cinqüenta mil foram ver Kaká no Real Madri; mais que isso foi ver Viola. Muitos tricolores ainda se vangloriam desses números.
De qualquer forma, já que Paulo Carneiro fez isso de vestir a camisa, ou ele devia ter feito um regime ou ter pedido à empresa que confecciona aquele pano uma XXG.
Enquanto isso, muitas crianças no Barradão comemoravam, felizes, rindo contentes por causa do seu time. Deve ser por isso que meus amigos torcedores do Bahia andam tão nervosos. Os torcedores mirins do seu time estão sumindo. Sem crianças nos estádios não existe felicidade. Elas estão querendo ir ver o jogo do Vitória.
Como já disse também, ele joga no infantil do Bahia e viu o time do Santos por lá no Fazendão, treinando pro confronto com o Vitória.
“Mancini fez um golaço”, disse ele, comentando sobre um coletivo em que o treinador (ex) do Santos participou.
Também levei Cezar, um amigo que não ia ao Barradão desde 2004.
– Você não é pé frio, não, né?
– Tá maluco... – respondeu ele.
Chegamos cedo e pela primeira vez na história dessa porra eu não peguei fila pra entrar pela portaria do “Sou mais Vitória”.
O jogo começou.
– O jogo vai ser duro – disse um senhor do meu lado – Mancini conhece o Vitória.É um a zero Vitória – completou.
E em três minutos esse um a zero apareceu. Vacilo clássico de goleiro X astúcia clássica de atacante. Foi dar um chutão, furou, atacante atento, gol.Um a zero. Torcida comemorando e meu sobrinho disse:
– O Santos vai virar.
– Quem vai virar é você, que vai virar Vitória – respondi.
Um gol dessa forma, no início do jogo, além de mexer com o emocional de um time, desmonta todo o seu esquema tático. E isso ficou evidente. O Peixe ficou sem ar, balançando pra lá e pra cá, até que aos 15 minutos Leandro Domingues fez um lançamento primoroso para Roger, o autor do primeiro gol, que chutou para uma boa defesa de Douglas, o goleiro do Santos, o redimindo da merda que fez no lance do primeiro gol. Porém, ele deu rebote e a bola voltou pra Roger, que se redimiu da merda que fez no primeiro chute. Dois a zero.
– Assim vai ser mole – disse o senhor do meu lado, que antes tinha dito que ia ser duro. O que ele não imaginava, nem ninguém ali, é que seria tão mole.
Aos 24 minutos, outro contra ataque fulminante e terceiro gol do Vitória. Três a zero. Aos 28, quatro a zero com um gol Victor Ramos, zagueiro da divisão de base.
– Acabou o jogo. Acho até que vou sair do estádio. Lá fora posso tomar uma cerveja e ver o resto do jogo pelo rádio – brincou Cezar.
O Santos tremia em campo. Tentou sem perigo por algumas vezes, mas nada acontecia. O Vitória, naturalmente, diminuiu o ritmo depois do chocolate que dava. O Santos continuou tentando e conseguiu um pênalti no último lance. Quatro a um. Logo depois da cobrança do pênalti o juiz apitou o fim do primeiro tempo. Os aplausos da torcida do Santos pro golzinho nem foram ouvidos, pois foram abafados pelos aplausos da torcida do Vitória, que aplaudia o time que saia de campo.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
Segundo tempo começou e como era de se esperar, o Santos veio pra cima. O gol no final do tempo anterior deu um ânimo extra aos jogadores, que numa falta cobrada ao 16 minutos, chegou ao segundo gol. Quatro a dois.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
A torcida do Vitória não se abalou muito, mas o time, um pouco, e num rápido contra ataque, a bola chegou na cabeça de Kleber Pereira. Graças a uma defesa milagrosa de Viáfara, o Santos não fez quatro a três. A torcida então sentiu o baque.
– O time relaxou – gritou um torcedor.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
O Vitória passou a errar passes no meio de campo e o Santos passou a gostar do jogo.
O clima ficou tenso. Um quatro a três seria emoção demais.
– Tomara que essa porra acabe logo – disse Cezar.
Mas o Vitória tem uma coisa que nenhum time tem. Apodi. Com Apodi, as chances do Vitória estar no campo de ataque são maiores. O time recuperou o fôlego, recuperou o meio campo e voltou a atacar. Criou boas chances e conseguiu um pênalti onde Leandro Domingues, que deu o passe para três dos quatro gols, converteu. Cinco a dois. Nem meu sobrinho falou mais nada. O chocolate já estava escancarado. Cinco minutos depois, Jackson, que acabara de entrar, fez o dele depois de quatro meses parado. Primeiro ele perdeu um gol de cara, chutando pra fora, mas logo depois, ele começou uma jogada tocando pra Roger e correndo pra receber em velocidade, cabeceando de forma fulminante. Seis a dois.
Veja aqui o vídeo do jogo. Não consegui filmar todos os gols (foram muitos), mas tem boas cenas.
Ironia do destino: Mancini pediu demissão do Vitória, mas no primeiro confronto depois disso, o Vitória foi lá e “demitiu” Mancini. Ele achou que conhecia o Vitória, mas na verdade era o Vitória que o conhecia.
Cezar disse:
– Rapaz, quando o juiz apitar, dê um zoom pra filmar Mancini de perto que você vai ver um cara se aproximando dele com a rescisão e uma caneta.
Depois disso o Santos ficou entregue e o Vitória perdeu gols sucessivos. Poderia ter sido nove ou dez a dois. Apodi infernizou o ataque do time que o desprezou no ano passado. Não tem como ele não correr, é só ele pegar na bola que vinte mil pessoas começam a gritar “vai, Apodi, vai, Apodi, vai, maluco, vai, Apodi...”. E ele vai.
Apodi é ídolo. Devia ter uma estátua dele no Barradão. Só assim pra ver ele parado.
Os torcedores do Bahia torcem contra Apodi, fazem piadas sobre ele, tentam denegrir, invejosamente, o nosso velocista... Mas a gente entende. Os caras estão acabados.
De vez em quando eu leio blogs alheios de torcedores do Bahia (assim como leio blogs de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Internacional...) e os textos dos torcedores do Bahia são o reflexo da nostalgia. Os temas são sempre “ah, como era bom aquele tempo, 30 anos atrás...”, ou de revolta por goleadas sofridas contra Américas da PQP, Ipatingas e Figueirenses.
E Paulo Carneiro vestindo a camisa do Bahia foi a coisa mais estapafúrdia do ano. O termo “vestir a camisa da empresa” pode se empregar em qualquer ocasião, menos em um time de futebol, onde a camisa é o que veste, sobretudo, o torcedor. Mudar de time quando criança, tudo bem, é normal, é aceitável, o indivíduo está começando a entender as coisas, vendo quem ganha, quem perde e assim passa a gostar de um time ou de outro. Conheço tricolores filhos de rubro-negros e vice-versa. Mas virar a folha depois de velho é lamentável. A torcida do Bahia ainda aceita esse tipo de coisa.
Quando ele foi anunciado, eles repudiaram:
– Um rubro-negro no meu Baêa?! Nem com a porra – diziam os tricolores.
Aí ele deu uma entrevista cheia de pompa, usando uma linguagem moderna de marketing, falando em números, falando do seu passado...
– O cara é um bom administrador, hoje o futebol moderno precisa disso... – mudaram o discurso.
Chega a ser decepcionante ver em como acreditam em tudo. É como lotar a Fonte Nova pra recepcionar Viola em 2005, com 37 anos de idade. Cinqüenta mil foram ver Kaká no Real Madri; mais que isso foi ver Viola. Muitos tricolores ainda se vangloriam desses números.
De qualquer forma, já que Paulo Carneiro fez isso de vestir a camisa, ou ele devia ter feito um regime ou ter pedido à empresa que confecciona aquele pano uma XXG.
Enquanto isso, muitas crianças no Barradão comemoravam, felizes, rindo contentes por causa do seu time. Deve ser por isso que meus amigos torcedores do Bahia andam tão nervosos. Os torcedores mirins do seu time estão sumindo. Sem crianças nos estádios não existe felicidade. Elas estão querendo ir ver o jogo do Vitória.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Vitória X Santo André (Na traaaaave)
Cheguei ao Barradão sem engarrafamento, jogo do Brasil acabara de terminar, muita gente ainda voltando do São João, parei numa vaga boa, sem stress, tudo bem tranqüilo até eu enxergar a fila do Sou Mais Vitória, que mais uma vez era dez vezes maior do que a fila de quem acabou de comprar o ingresso. É meu quinto jogo como associado, é a quinta fila quilométrica que pego e é a quinta vez que flagro torcedores de primeira viagem que achavam que com a compra do dito cujo não pegaria mais fila pra entrar:
– Essa é a fila do Sou Mais Vitória? – perguntou um torcedor acompanhado dos dois filhos e com a carteira de associado na mão.
– É – respondi.
– Do Sou Mais Vitória? – perguntou de novo, sem querer acreditar.
– Isso.
– Que porra é essa? – ficou a se perguntar.
Mas essa é mesmo a pergunta que a diretoria do Vitória tem que responder:
“Que porra é essa?”
Além do mais, muitas queixas de torcedores que ainda não receberam a camisa oficial do time, prometida na compra do Sou Mais Vitória. Eu mesmo fiz minha carteira em fevereiro e até hoje não recebi a camisa, inclusive a minha já está vendida, pois acho o padrão muito feio. As marcas de patrocínio (Tim, MCS, Insinuante, Lupo, Habibs) estão tendo o mesmo peso gráfico que o escudo do time. Tudo do mesmo tamanho. Não dá pra distinguir o que é escudo e o que é marca. Pode ter quantas marcas der, mas que se encontre um equilíbrio no design, deixando o escudo em primeiro plano. Vendi minha camisa (que ainda não recebi, repito) por 100 reais. A pergunta que fica agora é outra. Ou melhor, são duas:
“Que porra é essa?” e “Caso mude o patrocinador do material esportivo, os associados que ainda não receberam a camisa irão receber o padrão velho ou o novo?”.
Sonhamos cheios de esperança com o bom senso da diretoria e do departamento de marketing.
Escolher o lugar pra ver o jogo é uma loteria. Nunca se sabe que tipo de torcedor vai estar do seu lado. Pode ser um calado, pode ser um que fala o tempo todo, um que xinga, um que fuma... Sentei do lado de um que era o pensamento negativo em pessoa. Toda bola que o Vitória pegava ele jogava praga. Apodi pegava na bola, avançava pela lateral e ele dizia:
– Lá vai esse fazer merda, repare no que tô dizendo, ó a merda...
Apodi toca pra Leandro Domingues:
– Ahh, aí fudeu, vai dar em nada, vai perder a bola, repare...
Leandro toca pra Roger, que vai pra cima:
– Vixe, esse é pior ainda, vai fazer nada, essa carniça...
Roger chuta pra fora.
– Não falei... Tô dizendo...
Toda jogada que eu Vitória armava, o cara secava. A palavra mais singela que ele disse foi quando Uellinton errou um passe:
– Que indisplicência da porra, viu? Esse Uellinton é muito indisplicente.
Foi o primeiro tempo todo assim. A pergunta que fica agora é outra:
O Vitória não fazia o gol por que o cara era negativo ou o cara era negativo por que o Vitória não fazia o gol?
Fim do primeiro tempo. Zero a zero.
Resolvi sair do lado do cara negativo e, como sempre faço no segundo tempo, me posicionei bem atrás do gol adversário. Geralmente ali, colado no muro, ficam os torcedores mais exaltados, que passam o jogo todo xingando o goleiro adversário, como nesse vídeo do jogo contra o Goiás pelo campeonato de 2008 (nunca mais encontrei essa figura lá), mas dessa vez ali só tinha crianças. Todas coladas no alambrado.
“Aqui vai ser pensamento positivo o tempo todo, o Vitória vai brocar”, profetizei.
Porém, as crianças, mesmos as mais novas, xingavam o goleiro como se fossem adultos. “Viado”, “frangueiro” e “vai tomar no c...” eram as mais ditas.
O Vitória vinha pra cima, rondava a área e um guri do meu lado ficava gritando, com um fôlego de atleta:
– Ó o mole da zaga, a zaga vai dar mole, vai dar mole...
E numa bola dividida, Elkeson, que era criança quando entrou no Vitória, acreditou na jogada e no mole que a zaga iria dar, deu um drible, avançou e chutou pra marcar um a zero. Apesar de estar com a câmera ligada, não consegui filmar o gol. À medida que Elkeson ia avançando, os pirralhos começaram a balançar o alambrado, me obrigando a ajeitar a filmadora bem na hora do chute... Só captei a comemoração.
Vitória um a zero. Era pouco contra o insosso Santo André, mas eram três pontos a mais na tabela.
Outro ataque do Vitória e numa sobra, Apodi chutou de longe, a bola passou perto, mas saiu pela linha de fundo. Tiro de meta pro Santo André. O gandula “finge” se atrapalhar com a reposição de bola, o goleiro do Santo André se irrita e devolve todos os xingamentos que recebia das crianças no pobre do gandula, que também era uma criança. O juiz então veio dar uma bronca no gandula e quando percebo, vem chegando também Marcelinho Carioca. Como só filmo o ataque rubro-negro, a câmera estava desligada. Liguei na pressa, mas não consegui filmar Marcelinho Carioca, metido a valente, xingar o gandula de “filho da p...”, mandar ele ir “tomar no c...” e dizer, com gestos, que depois acertava as contas com ele.
Quando Vanderlei Luxemburgo o chamou de “moleque” em um programa de televisão pra todo o Brasil ele ficou com o rabinho entre as pernas. Agora pra cima de um gandulinha vem todo valentão... O menino, coitado, ficou todo cabisbaixo.
A polícia chegou e mandou todo mundo sair do alambrado. Eu e as crianças. Tive de subir um tanto pra poder filmar sem a interferência da grade.
O Santo André não desistiu hora nenhuma, queria o gol de empate e a chance apareceu: de forma desnecessária, Magal fez pênalti no meia Rodrigo Fabri, aos 32 minutos do segundo tempo. Um a um naquela altura do jogo seria o pior resultado. O Santo André iria se fechar mais ainda, o Vitória teria que sair de vez, poderia ficar vulnerável e assim até sofrer uma virada no contra-ataque. Mas me lembrei que quem iria bater o pênalti era Marcelinho Carioca, o chatão otário covarde.
– Vai perder – falei pra um cara que tava do meu lado, rezando para todos os santos. Menos pra Santo André, imagino.
Eu estava com tanta certeza, com tanto pensamento positivo, que rompi com a minha superstição e liguei a câmera pra filmar um “ataque” do time adversário. Sabia que o idiotão iria perder. Sabia que o gandula seria vingado e iria rir por último.
Não filmei o primeiro gol do Vitória, mas tenho uma ótima imagem do gol não feito de Marcelinho Carioca, renovando a torcida e o time, que foi pra cima logo em seguida e fez mais dois gols, abrindo três a zero. Tudo devidamente filmado. Clique aqui e veja o vídeo desse jogo.
Depois o Santo André diminuiu fazendo um golzinho, mas precisaria de um milagre pra reagir, ainda mais depois que Neneca, o goleiro, fez lambança e cometeu um pênalti em Roger. A polícia deixou os torcedores colarem de novo no alambrado. Roger mostrou a Marcelinho Carioca como é que faz e fechou o placar. Vitória 4 X 1 Santo André e a terceira colocação na tabela.
– Essa é a fila do Sou Mais Vitória? – perguntou um torcedor acompanhado dos dois filhos e com a carteira de associado na mão.
– É – respondi.
– Do Sou Mais Vitória? – perguntou de novo, sem querer acreditar.
– Isso.
– Que porra é essa? – ficou a se perguntar.
Mas essa é mesmo a pergunta que a diretoria do Vitória tem que responder:
“Que porra é essa?”
Além do mais, muitas queixas de torcedores que ainda não receberam a camisa oficial do time, prometida na compra do Sou Mais Vitória. Eu mesmo fiz minha carteira em fevereiro e até hoje não recebi a camisa, inclusive a minha já está vendida, pois acho o padrão muito feio. As marcas de patrocínio (Tim, MCS, Insinuante, Lupo, Habibs) estão tendo o mesmo peso gráfico que o escudo do time. Tudo do mesmo tamanho. Não dá pra distinguir o que é escudo e o que é marca. Pode ter quantas marcas der, mas que se encontre um equilíbrio no design, deixando o escudo em primeiro plano. Vendi minha camisa (que ainda não recebi, repito) por 100 reais. A pergunta que fica agora é outra. Ou melhor, são duas:
“Que porra é essa?” e “Caso mude o patrocinador do material esportivo, os associados que ainda não receberam a camisa irão receber o padrão velho ou o novo?”.
Sonhamos cheios de esperança com o bom senso da diretoria e do departamento de marketing.
Escolher o lugar pra ver o jogo é uma loteria. Nunca se sabe que tipo de torcedor vai estar do seu lado. Pode ser um calado, pode ser um que fala o tempo todo, um que xinga, um que fuma... Sentei do lado de um que era o pensamento negativo em pessoa. Toda bola que o Vitória pegava ele jogava praga. Apodi pegava na bola, avançava pela lateral e ele dizia:
– Lá vai esse fazer merda, repare no que tô dizendo, ó a merda...
Apodi toca pra Leandro Domingues:
– Ahh, aí fudeu, vai dar em nada, vai perder a bola, repare...
Leandro toca pra Roger, que vai pra cima:
– Vixe, esse é pior ainda, vai fazer nada, essa carniça...
Roger chuta pra fora.
– Não falei... Tô dizendo...
Toda jogada que eu Vitória armava, o cara secava. A palavra mais singela que ele disse foi quando Uellinton errou um passe:
– Que indisplicência da porra, viu? Esse Uellinton é muito indisplicente.
Foi o primeiro tempo todo assim. A pergunta que fica agora é outra:
O Vitória não fazia o gol por que o cara era negativo ou o cara era negativo por que o Vitória não fazia o gol?
Fim do primeiro tempo. Zero a zero.
Resolvi sair do lado do cara negativo e, como sempre faço no segundo tempo, me posicionei bem atrás do gol adversário. Geralmente ali, colado no muro, ficam os torcedores mais exaltados, que passam o jogo todo xingando o goleiro adversário, como nesse vídeo do jogo contra o Goiás pelo campeonato de 2008 (nunca mais encontrei essa figura lá), mas dessa vez ali só tinha crianças. Todas coladas no alambrado.
“Aqui vai ser pensamento positivo o tempo todo, o Vitória vai brocar”, profetizei.
Porém, as crianças, mesmos as mais novas, xingavam o goleiro como se fossem adultos. “Viado”, “frangueiro” e “vai tomar no c...” eram as mais ditas.
O Vitória vinha pra cima, rondava a área e um guri do meu lado ficava gritando, com um fôlego de atleta:
– Ó o mole da zaga, a zaga vai dar mole, vai dar mole...
E numa bola dividida, Elkeson, que era criança quando entrou no Vitória, acreditou na jogada e no mole que a zaga iria dar, deu um drible, avançou e chutou pra marcar um a zero. Apesar de estar com a câmera ligada, não consegui filmar o gol. À medida que Elkeson ia avançando, os pirralhos começaram a balançar o alambrado, me obrigando a ajeitar a filmadora bem na hora do chute... Só captei a comemoração.
Vitória um a zero. Era pouco contra o insosso Santo André, mas eram três pontos a mais na tabela.
Outro ataque do Vitória e numa sobra, Apodi chutou de longe, a bola passou perto, mas saiu pela linha de fundo. Tiro de meta pro Santo André. O gandula “finge” se atrapalhar com a reposição de bola, o goleiro do Santo André se irrita e devolve todos os xingamentos que recebia das crianças no pobre do gandula, que também era uma criança. O juiz então veio dar uma bronca no gandula e quando percebo, vem chegando também Marcelinho Carioca. Como só filmo o ataque rubro-negro, a câmera estava desligada. Liguei na pressa, mas não consegui filmar Marcelinho Carioca, metido a valente, xingar o gandula de “filho da p...”, mandar ele ir “tomar no c...” e dizer, com gestos, que depois acertava as contas com ele.
Quando Vanderlei Luxemburgo o chamou de “moleque” em um programa de televisão pra todo o Brasil ele ficou com o rabinho entre as pernas. Agora pra cima de um gandulinha vem todo valentão... O menino, coitado, ficou todo cabisbaixo.
A polícia chegou e mandou todo mundo sair do alambrado. Eu e as crianças. Tive de subir um tanto pra poder filmar sem a interferência da grade.
O Santo André não desistiu hora nenhuma, queria o gol de empate e a chance apareceu: de forma desnecessária, Magal fez pênalti no meia Rodrigo Fabri, aos 32 minutos do segundo tempo. Um a um naquela altura do jogo seria o pior resultado. O Santo André iria se fechar mais ainda, o Vitória teria que sair de vez, poderia ficar vulnerável e assim até sofrer uma virada no contra-ataque. Mas me lembrei que quem iria bater o pênalti era Marcelinho Carioca, o chatão otário covarde.
– Vai perder – falei pra um cara que tava do meu lado, rezando para todos os santos. Menos pra Santo André, imagino.
Eu estava com tanta certeza, com tanto pensamento positivo, que rompi com a minha superstição e liguei a câmera pra filmar um “ataque” do time adversário. Sabia que o idiotão iria perder. Sabia que o gandula seria vingado e iria rir por último.
Não filmei o primeiro gol do Vitória, mas tenho uma ótima imagem do gol não feito de Marcelinho Carioca, renovando a torcida e o time, que foi pra cima logo em seguida e fez mais dois gols, abrindo três a zero. Tudo devidamente filmado. Clique aqui e veja o vídeo desse jogo.
Depois o Santo André diminuiu fazendo um golzinho, mas precisaria de um milagre pra reagir, ainda mais depois que Neneca, o goleiro, fez lambança e cometeu um pênalti em Roger. A polícia deixou os torcedores colarem de novo no alambrado. Roger mostrou a Marcelinho Carioca como é que faz e fechou o placar. Vitória 4 X 1 Santo André e a terceira colocação na tabela.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Vitória X Grêmio (aos 48 vale 3)
Meu cunhado é torcedor do Bahia e com isso meus quatro sobrinhos também são. Luca, o único menino, tem 11 anos e joga no infantil do Bahia. Às vezes treina no Fazendão.
– Quer ir ver Vitória X Grêmio? – convidei.
– Tá maluco, pisar no Barralixo, cheio de urubu voando – disse ele, soltando todas as velhas piadas tricolores.
Seu pai entrou na conversa e uma breve discussão Vitória X Bahia começou. Eles fizeram todo aquele sonolento discurso de sempre, que na década de 70 era diferente e blá, blá, blá... Esperei eles terminarem, bocejei e disse:
– Luquinha, você tem 11 anos e seu pai já te levou pra Fonte Nova e Pituaçu inúmeras vezes, mas ele já te levou alguma vez pra ver um jogo da primeira divisão?
Foi o único argumento que precisei. O menino fica vendo pela televisão jogos do Manchester, Barcelona, Milan, Real Madri e quando vai pro estádio, é obrigado a ver Ipatinga, Brasiliense, Bahia...
– Mas vou de camisa azul – exigiu ele.
Não vi problemas.
O jogo começaria às 16h. Saímos às 14:20, pegamos o clássico engarrafamento e às 15:45 conseguimos estacionar. Às 15:55 pegamos outro engarrafamento. A velha e boa e fila do “Sou Mais Otário”. Apesar de já ter pago pelo ano inteiro, o associado do Sou Mais Vitória é obrigado a ficar em uma enorme fila pra entrar no Barradão, sendo que o principal motivo dele se associar foi justamente para não pegar fila alguma. O ruim de ficar nessa fila, além do sol na cara, foi que perdemos 5 minutos do primeiro tempo. O lado bom foi que não tivemos de ouvir “vai buscar Dalila...”. Mais chato que essa música só torcedor do Bahia. E por sinal, como de costume, tinham vários deles na torcida adversária.
Torcedor do Bahia tem tudo pra ser um cara feliz. Durante o ano ele torce pro São Paulo, pro Grêmio, pro Flamengo, pro Internacional, pro Cruzeiro, pro Palmeiras...
– Seu Vitória vai levar fumo do Grêmio – diziam antes do jogo.
Os torcedores do Bahia estão muito tensos. Qualquer conversa sobre futebol já começam gritando, desesperados por atenção.
Encontrei um amigo meu depois da goleada sofrida contra o Vasco e o cara me xingou todo.
– Tomou no cu, filho da puta, viado, se fudeu, seu Vitória de merda, sua puta...
Eu convenci Luca a ir pro jogo dizendo que ele veria um jogo do Grêmio, mas o decepcionei. Só o Vitória jogou. Ele, de camisa azul, torcia baixinho, mas sem muito efeito.
O Vitória atacou o tempo todo, mas apesar das constantes investidas, a zaga do Grêmio parecia intransponível. Zagueiros gigantes. E se passasse por eles, ainda tinha de passar pelo goleiro gigante, recém convocado pra seleção brasileira.
Mas gigante mesmo é Apodi. Apodi bota pra f... Correu, driblou, deu canseira, tomou faltas e fez um jogador do Grêmio ser expulso.
Mesmo com um a mais, o Vitória não finalizava com tranqüilidade. Se manteve no ataque, mas o gol não saía. O tempo foi passando e o zero a zero foi ficando pesado para o Vitória. O Grêmio jogou o tempo todo pensando nele.
Empatar em casa, jogando bem, com um a mais, era perder dois pontos e não ganhar um. Mas com o Vitória cada vez mais ofensivo, em dois momentos passei a achar o zero a zero um bom resultado. Aproveitando o time aberto, o Grêmio, em dois contra-ataques rápidos, fez Viáfara ser um dos heróis da partida. Duas fantásticas defesas. Uma delas aos 43 do segundo tempo.
“Melhor acabar logo o jogo”, cheguei a pensar.
Mas aos 48 minutos Apodi tocou a bola pra Leandro Domingues, que durante o jogo todo tentou fazer gol de cabeça, pelo meio, linha de fundo, tabelando e nada de conseguir furar o bloqueio gremista.
No intervalo do jogo, um torcedor comentou alto que pra furar aquela zaga só chutando de fora. Leandro seguiu o conselho, chutou de longe e a bola foi indo, indo, indo, indo, indo... “e iu”. Não foi um gol. Foi um golaço. Aliás, não foi um golaço; foi um golaço aos 48 do segundo tempo. Veja o vídeo aqui.
O jogo terminou 1 X 0, nove pontos, a segunda colocação na tabela e inúmeros tricolores frustrados.
– Quer ir ver Vitória X Grêmio? – convidei.
– Tá maluco, pisar no Barralixo, cheio de urubu voando – disse ele, soltando todas as velhas piadas tricolores.
Seu pai entrou na conversa e uma breve discussão Vitória X Bahia começou. Eles fizeram todo aquele sonolento discurso de sempre, que na década de 70 era diferente e blá, blá, blá... Esperei eles terminarem, bocejei e disse:
– Luquinha, você tem 11 anos e seu pai já te levou pra Fonte Nova e Pituaçu inúmeras vezes, mas ele já te levou alguma vez pra ver um jogo da primeira divisão?
Foi o único argumento que precisei. O menino fica vendo pela televisão jogos do Manchester, Barcelona, Milan, Real Madri e quando vai pro estádio, é obrigado a ver Ipatinga, Brasiliense, Bahia...
– Mas vou de camisa azul – exigiu ele.
Não vi problemas.
O jogo começaria às 16h. Saímos às 14:20, pegamos o clássico engarrafamento e às 15:45 conseguimos estacionar. Às 15:55 pegamos outro engarrafamento. A velha e boa e fila do “Sou Mais Otário”. Apesar de já ter pago pelo ano inteiro, o associado do Sou Mais Vitória é obrigado a ficar em uma enorme fila pra entrar no Barradão, sendo que o principal motivo dele se associar foi justamente para não pegar fila alguma. O ruim de ficar nessa fila, além do sol na cara, foi que perdemos 5 minutos do primeiro tempo. O lado bom foi que não tivemos de ouvir “vai buscar Dalila...”. Mais chato que essa música só torcedor do Bahia. E por sinal, como de costume, tinham vários deles na torcida adversária.
Torcedor do Bahia tem tudo pra ser um cara feliz. Durante o ano ele torce pro São Paulo, pro Grêmio, pro Flamengo, pro Internacional, pro Cruzeiro, pro Palmeiras...
– Seu Vitória vai levar fumo do Grêmio – diziam antes do jogo.
Os torcedores do Bahia estão muito tensos. Qualquer conversa sobre futebol já começam gritando, desesperados por atenção.
Encontrei um amigo meu depois da goleada sofrida contra o Vasco e o cara me xingou todo.
– Tomou no cu, filho da puta, viado, se fudeu, seu Vitória de merda, sua puta...
Eu convenci Luca a ir pro jogo dizendo que ele veria um jogo do Grêmio, mas o decepcionei. Só o Vitória jogou. Ele, de camisa azul, torcia baixinho, mas sem muito efeito.
O Vitória atacou o tempo todo, mas apesar das constantes investidas, a zaga do Grêmio parecia intransponível. Zagueiros gigantes. E se passasse por eles, ainda tinha de passar pelo goleiro gigante, recém convocado pra seleção brasileira.
Mas gigante mesmo é Apodi. Apodi bota pra f... Correu, driblou, deu canseira, tomou faltas e fez um jogador do Grêmio ser expulso.
Mesmo com um a mais, o Vitória não finalizava com tranqüilidade. Se manteve no ataque, mas o gol não saía. O tempo foi passando e o zero a zero foi ficando pesado para o Vitória. O Grêmio jogou o tempo todo pensando nele.
Empatar em casa, jogando bem, com um a mais, era perder dois pontos e não ganhar um. Mas com o Vitória cada vez mais ofensivo, em dois momentos passei a achar o zero a zero um bom resultado. Aproveitando o time aberto, o Grêmio, em dois contra-ataques rápidos, fez Viáfara ser um dos heróis da partida. Duas fantásticas defesas. Uma delas aos 43 do segundo tempo.
“Melhor acabar logo o jogo”, cheguei a pensar.
Mas aos 48 minutos Apodi tocou a bola pra Leandro Domingues, que durante o jogo todo tentou fazer gol de cabeça, pelo meio, linha de fundo, tabelando e nada de conseguir furar o bloqueio gremista.
No intervalo do jogo, um torcedor comentou alto que pra furar aquela zaga só chutando de fora. Leandro seguiu o conselho, chutou de longe e a bola foi indo, indo, indo, indo, indo... “e iu”. Não foi um gol. Foi um golaço. Aliás, não foi um golaço; foi um golaço aos 48 do segundo tempo. Veja o vídeo aqui.
O jogo terminou 1 X 0, nove pontos, a segunda colocação na tabela e inúmeros tricolores frustrados.
domingo, 3 de maio de 2009
Ba x Vi (Ah, eu duvido)
Por que, meu Deus, por que um simples jogo de futebol mexe tanto com as pessoas?
Por que gostamos de humilhar nossos próprios amigos com palavras pesadas pelo simples fato do time que eles torcem
ter perdido um jogo?
Um Ba x Vi é realmente algo inigualável. Já vi muitos. Já sofri em alguns. Estava no de Raudinei. Estava também no título que o Bahia ganhou no Barradão. 2 a 0. Dois gols de Wesley. Não lembro o ano.
Em dia de Ba x Vi, a atmosfera da cidade muda. Um clima de tensão se instala no ar. Nada importa, só o jogo. Só a vitória. Não importa se seu time está na primeira divisão e o outro na segunda. Não importa se tem oito anos que o outro time não ganha um campeonato baiano... tudo vai por água a baixo se seu time não ganhar aquele jogo.
Assim como hoje, dia 03/05, dia do BAVI final de 2009, o tempo daquele jogo de Wesley estava demasiadamente chuvoso. Nessas horas a superstição sempre aparece:
“Porra, naquele jogo estava chovendo, era no Barradão, o Bahia ganhou por 2 a 0, mesmo placar que tem que fazer hoje...”. Até torci pro jogo ser cancelado.
Era meu primeiro jogo no campeonato baiano desse ano. Já tinha ido pra Juventude e Atlético Mineiro pela Copa do Brasil, mas não tive paciência em fazer resenhas desses jogos pra esse blog. A única coisa que eu tive vontade de falar desses jogos foi que comprei o Sou Mais Vitória e gostaria de sugerir a direção do clube que mudasse o nome do negócio pra Sou Mais Otário. Comprei pra justamente não ter de pegar fila nem me preocupar com compra de ingresso, porém, a fila dos associados é bem maior do que a de quem vai na bilheteria e compra um ingresso. Nos dois jogos perdi o começo do primeiro tempo. Eu e centenas. Apenas duas catracas funcionando. Lamentável. Se não consegue melhorar o serviço de algo tão simples, inclusive já tendo recebido por ele, me pergunto se consegue administrar um time na série A do campeonato brasileiro.
Fui com meu pai. Faziam 5 anos que ele não ia aos estádios. Nem Barradão nem Fonte Nova. Compramos o Sou Mais Vitória já prevendo os jogos finais do Baiano, o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Sul-americana. Chegamos cedo, pois sabia que teria filas enormes, o que aborreceria meu pai. Infelizmente, em jogos no meio da semana não dá pra chegar tão cedo. Às 15 horas, já estávamos sentados.
A torcida do Bahia compareceu com uma “moquequinha de gente ali no cantinho”. Tinham como grito de guerra o “Ah, eu acredito”. Acreditavam no placar com dois gols de diferença. O maior fato para esse acreditar era o repetido “oxe, já dei 2 a 0 lá nesse ano, o Barradão é meu parque de diversões”.
Tudo que o Vitória queria quase aconteceu. Apodi, ídolo máximo (pelo menos pra mim), perdeu um gol incrível.
E tudo que o Bahia queria aconteceu. Em seguida a jogada de Apodi, ainda no início do jogo, gol do Bahia. 1 x 0. A moquequinha ficou ouriçada, berrando loucamente o “ah, eu acredito, ah, eu acredito”. A torcida do Vitória não se abalou. Continuou apoiando o time, pois sabia do tamanho da viabilidade de reverter a situação. O jogo ficou naquele reme-reme e tudo que a torcida do Vitória não queria aconteceu. Aos 47 do primeiro tempo, gol do Bahia. Golaço, por sinal. 2 x 0 e fim do primeiro tempo.
– Melhor 2 a 0 aos 47 do primeiro tempo do que aos 47 do segundo tempo – disse pra meu pai, com otimismo.
A moqueca foi à loucura: “Bahia, Bahia, Bahia”; “ah, eu acredito”; “sabe, eu sou Baêa...”; “ah, eu acredito”...
Foi o intervalo todo assim.
O pesadelo Wesley não saía de minha mente. A chuva não dava trégua, encharcando minha calça jeans, meu tênis e deixando a derrota ainda mais humilhante e dolorosa.
Trabalho numa sala com 10 pessoas. Sete são Bahia. Dois são Vitória (contando comigo) e um é do interior e torce pro Flamengo. Só imaginava como seria a segunda-feira.
“Não acredito que isso tá acontecendo, com toda a vantagem, com toda a campanha, com a descabaçada em Pituaçu, perder o campeonato por 2 a 0, no Barradão, pra um time de segunda...” foram os pensamentos que me fizeram respirar fundo por várias vezes durante o jogo. Não podia acreditar no que estava acontecendo.
“Ah, eu acredito”, berravam eles sem parar.
A chuva, além de degradar a moral, me obrigou a deixar a filmadora debaixo do casaco. Como choveu o tempo todo, não filmei quase nada do jogo. Mas de repente, a chuva cessou. A superstição então se acendeu. Sou baiano, ora bolas.
“A chuva parar assim é um sinal pra eu ligar a câmera, pois vai acontecer o gol do Vitória”, pensava eu.
Esse vídeo responde se minha superstição deu certo.
2 x 1. Gol de Neto Baiano, artilheiro da competição. O título voltava pras mãos do Vitória e passava longe, pelo oitavo ano consecutivo, das mãos do Bahia. A moqueca ficou calada. O Bahia veio descontrolado pra cima enquanto o Vitória perdia gols sucessivamente nos contra-ataques. A chuva voltou com tudo. Não filmei o segundo gol do Vitória por causa dela. 2 x 2. Ramon.
Gostaria de agradecer ao Bahia pelos dois gols iniciais. Deu mais sabor ao jogo. Temperou o título.
Também, por causa da chuva, não filmei o “créu, créu, créu” que torcida e jogadores do Vitória fizeram no fim do jogo. Também não deu pra filmar o “senta que é de menta”, o grito de “tri-campeãããão” e o melhor de todos os gritos: o grito de "ah, eu acredito", gritado agora pela torcida do Vitória, enquanto os torcedores, digo, sofredores do Bahia olhavam calados, sem acreditar.
Outra coisa que não pude filmar por causa da chuva foi o vexame do paspalho do goleiro do Bahia, Marcelo, que com um choro de perdedor começou uma luta campal depois do apito final. Em seguida, também não pude filmar a torcida do Vitória gritando “time de puta, time de puta...”.
O Bahia, pelo oitavo ano consecutivo, não apareceu no Fantástico como ator principal da noite das finais dos estaduais. Seus torcedores, pelo oitavo ano consecutivo, não ligaram a TV domingo de noite.
Em tempo, só pra gozar um pouco mais:
Quatro amigos (Peu, Beto, Léo e Carlão) prepararam uma despedida de solteiro para Zé, que iria se casar em uma semana. Alugaram uma casa no litoral norte e convidaram, mediante pagamento, algumas garotas para a festa. Já no fim da noite, exauridos, finalmente começaram a conversar com elas. Falaram da vida, de cinema, de música, carnaval e, claro, futebol. Beto então perguntou:
– Vocês torcem pra que time?
– Eu torço pro Bahia – disse a primeira, uma morena alta.
– Eu também – falou a loirinha.
– Sou Bahia, claro, time da massa – disse a mulata.
– Tricolor de aço, sempre – se adiantou a oriental.
– Baêa, minha porra – disse a baixinha.
Um silêncio momentâneo tomou conta do ambiente. Constatando que todas torciam pro Bahia, Peu, Beto, Carlão e Zé, torcedores do Bahia, ficaram olhando com ar superior pra Léo, o único torcedor do Vitória no local. Mas Léo nem se abalou:
– Normal, já sabia disso... – disse ele.
– Já sabia o quê? Que o Bahia é maioria? – pirraçou Carlão.
– Não. Que o Bahia é time de puta – respondeu Léo.
Por que gostamos de humilhar nossos próprios amigos com palavras pesadas pelo simples fato do time que eles torcem
ter perdido um jogo?
Um Ba x Vi é realmente algo inigualável. Já vi muitos. Já sofri em alguns. Estava no de Raudinei. Estava também no título que o Bahia ganhou no Barradão. 2 a 0. Dois gols de Wesley. Não lembro o ano.
Em dia de Ba x Vi, a atmosfera da cidade muda. Um clima de tensão se instala no ar. Nada importa, só o jogo. Só a vitória. Não importa se seu time está na primeira divisão e o outro na segunda. Não importa se tem oito anos que o outro time não ganha um campeonato baiano... tudo vai por água a baixo se seu time não ganhar aquele jogo.
Assim como hoje, dia 03/05, dia do BAVI final de 2009, o tempo daquele jogo de Wesley estava demasiadamente chuvoso. Nessas horas a superstição sempre aparece:
“Porra, naquele jogo estava chovendo, era no Barradão, o Bahia ganhou por 2 a 0, mesmo placar que tem que fazer hoje...”. Até torci pro jogo ser cancelado.
Era meu primeiro jogo no campeonato baiano desse ano. Já tinha ido pra Juventude e Atlético Mineiro pela Copa do Brasil, mas não tive paciência em fazer resenhas desses jogos pra esse blog. A única coisa que eu tive vontade de falar desses jogos foi que comprei o Sou Mais Vitória e gostaria de sugerir a direção do clube que mudasse o nome do negócio pra Sou Mais Otário. Comprei pra justamente não ter de pegar fila nem me preocupar com compra de ingresso, porém, a fila dos associados é bem maior do que a de quem vai na bilheteria e compra um ingresso. Nos dois jogos perdi o começo do primeiro tempo. Eu e centenas. Apenas duas catracas funcionando. Lamentável. Se não consegue melhorar o serviço de algo tão simples, inclusive já tendo recebido por ele, me pergunto se consegue administrar um time na série A do campeonato brasileiro.
Fui com meu pai. Faziam 5 anos que ele não ia aos estádios. Nem Barradão nem Fonte Nova. Compramos o Sou Mais Vitória já prevendo os jogos finais do Baiano, o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Sul-americana. Chegamos cedo, pois sabia que teria filas enormes, o que aborreceria meu pai. Infelizmente, em jogos no meio da semana não dá pra chegar tão cedo. Às 15 horas, já estávamos sentados.
A torcida do Bahia compareceu com uma “moquequinha de gente ali no cantinho”. Tinham como grito de guerra o “Ah, eu acredito”. Acreditavam no placar com dois gols de diferença. O maior fato para esse acreditar era o repetido “oxe, já dei 2 a 0 lá nesse ano, o Barradão é meu parque de diversões”.
Tudo que o Vitória queria quase aconteceu. Apodi, ídolo máximo (pelo menos pra mim), perdeu um gol incrível.
E tudo que o Bahia queria aconteceu. Em seguida a jogada de Apodi, ainda no início do jogo, gol do Bahia. 1 x 0. A moquequinha ficou ouriçada, berrando loucamente o “ah, eu acredito, ah, eu acredito”. A torcida do Vitória não se abalou. Continuou apoiando o time, pois sabia do tamanho da viabilidade de reverter a situação. O jogo ficou naquele reme-reme e tudo que a torcida do Vitória não queria aconteceu. Aos 47 do primeiro tempo, gol do Bahia. Golaço, por sinal. 2 x 0 e fim do primeiro tempo.
– Melhor 2 a 0 aos 47 do primeiro tempo do que aos 47 do segundo tempo – disse pra meu pai, com otimismo.
A moqueca foi à loucura: “Bahia, Bahia, Bahia”; “ah, eu acredito”; “sabe, eu sou Baêa...”; “ah, eu acredito”...
Foi o intervalo todo assim.
O pesadelo Wesley não saía de minha mente. A chuva não dava trégua, encharcando minha calça jeans, meu tênis e deixando a derrota ainda mais humilhante e dolorosa.
Trabalho numa sala com 10 pessoas. Sete são Bahia. Dois são Vitória (contando comigo) e um é do interior e torce pro Flamengo. Só imaginava como seria a segunda-feira.
“Não acredito que isso tá acontecendo, com toda a vantagem, com toda a campanha, com a descabaçada em Pituaçu, perder o campeonato por 2 a 0, no Barradão, pra um time de segunda...” foram os pensamentos que me fizeram respirar fundo por várias vezes durante o jogo. Não podia acreditar no que estava acontecendo.
“Ah, eu acredito”, berravam eles sem parar.
A chuva, além de degradar a moral, me obrigou a deixar a filmadora debaixo do casaco. Como choveu o tempo todo, não filmei quase nada do jogo. Mas de repente, a chuva cessou. A superstição então se acendeu. Sou baiano, ora bolas.
“A chuva parar assim é um sinal pra eu ligar a câmera, pois vai acontecer o gol do Vitória”, pensava eu.
Esse vídeo responde se minha superstição deu certo.
2 x 1. Gol de Neto Baiano, artilheiro da competição. O título voltava pras mãos do Vitória e passava longe, pelo oitavo ano consecutivo, das mãos do Bahia. A moqueca ficou calada. O Bahia veio descontrolado pra cima enquanto o Vitória perdia gols sucessivamente nos contra-ataques. A chuva voltou com tudo. Não filmei o segundo gol do Vitória por causa dela. 2 x 2. Ramon.
Gostaria de agradecer ao Bahia pelos dois gols iniciais. Deu mais sabor ao jogo. Temperou o título.
Também, por causa da chuva, não filmei o “créu, créu, créu” que torcida e jogadores do Vitória fizeram no fim do jogo. Também não deu pra filmar o “senta que é de menta”, o grito de “tri-campeãããão” e o melhor de todos os gritos: o grito de "ah, eu acredito", gritado agora pela torcida do Vitória, enquanto os torcedores, digo, sofredores do Bahia olhavam calados, sem acreditar.
Outra coisa que não pude filmar por causa da chuva foi o vexame do paspalho do goleiro do Bahia, Marcelo, que com um choro de perdedor começou uma luta campal depois do apito final. Em seguida, também não pude filmar a torcida do Vitória gritando “time de puta, time de puta...”.
O Bahia, pelo oitavo ano consecutivo, não apareceu no Fantástico como ator principal da noite das finais dos estaduais. Seus torcedores, pelo oitavo ano consecutivo, não ligaram a TV domingo de noite.
Em tempo, só pra gozar um pouco mais:
Quatro amigos (Peu, Beto, Léo e Carlão) prepararam uma despedida de solteiro para Zé, que iria se casar em uma semana. Alugaram uma casa no litoral norte e convidaram, mediante pagamento, algumas garotas para a festa. Já no fim da noite, exauridos, finalmente começaram a conversar com elas. Falaram da vida, de cinema, de música, carnaval e, claro, futebol. Beto então perguntou:
– Vocês torcem pra que time?
– Eu torço pro Bahia – disse a primeira, uma morena alta.
– Eu também – falou a loirinha.
– Sou Bahia, claro, time da massa – disse a mulata.
– Tricolor de aço, sempre – se adiantou a oriental.
– Baêa, minha porra – disse a baixinha.
Um silêncio momentâneo tomou conta do ambiente. Constatando que todas torciam pro Bahia, Peu, Beto, Carlão e Zé, torcedores do Bahia, ficaram olhando com ar superior pra Léo, o único torcedor do Vitória no local. Mas Léo nem se abalou:
– Normal, já sabia disso... – disse ele.
– Já sabia o quê? Que o Bahia é maioria? – pirraçou Carlão.
– Não. Que o Bahia é time de puta – respondeu Léo.
sábado, 1 de novembro de 2008
Vitória X Flamengo (torcida genérica)
Meu pai é torcedor do Vitória, mas começou como flamenguista. Quando era pequeno, na cidade de Vitória da Conquista, o único contato com o futebol que ele tinha era através do rádio, e apenas sobre o campeonato carioca. Escolheu o Flamengo. Mais velho, veio pra Salvador e quando viu o Vitória entrando em campo, com as mesmas cores do Flamengo, decidiu que era para o Vitória que ele iria torcer. Nasci e, naturalmente, sou torcedor do Vitória. E não simpatizo com o Flamengo.
Acredito que esse pode ser um dos porquês de se ter tanto flamenguista espalhado pelo Brasil, fazendo o Flamengo encher todos os estádios.
– A fila tá dando cinco voltas em torno do prédio – disse-me um amigo, sobre a fila pra comprar ingresso pro jogo contra o Flamengo.
Uma vez, em uma viagem pela Chapada Diamantina, eu (Vitória), um amigo torcedor do Bahia e outro torcedor do Flamengo, apostamos quais camisas desses três times seriam as mais vistas durante a viagem, que foi de seis dias. Quem perdesse, teria de virar um copo de cerveja, só que sem cerveja, e sim, com abaíra, uma cachaça famosa por lá. A cachaça em si, é tranqüilo de beber, o problema é o arroto. Não pode arrotar. Se arrotar, fudeu.
O Flamengo ganhou com 15 camisas, seguido do Bahia com 9 e Vitória com 6. Achei até melhor, senão iam dizer que era vice e blá, blá, blá...
Encheram o copo, tremi ao sentir o cheiro, não pensei muito, virei de guti guti, segurei a respiração, soltei o ar devagar, me concentrei, mas não adiantou... O arroto foi inevitável. E com ele, toda a abaíra de volta, junto com um pastel de palmito de jaca que eu tinha acabado de comer.
Esse ano, por causa do blog, fui a quase todos os jogos do Vitória no Barradão. Vi Ipatinga, Náutico, Goiás, Portuguesa, Botafogo... não seria uma fila que iria me impedir de ver o Flamengo. A coisa era pessoal. A abaíra tá até hoje entalada. Nunca mais fui capaz de bebe-la de novo.
Soube que na loja da TIM, no Shopping Barra, estava vendendo o ingresso. Liguei pra lá e ninguém atendia. Resolvi arriscar e na hora do almoço fui até lá.
– Boa tarde, tem o ingresso pro jogo do Vitória?
– Tem...
“Que beleza!”, pensei.
– ... mas acabou – completou a imbecil.
Me concentrei, agradeci e fui embora. A guerra seria longa. Liguei pra Marcelo:
– Vai pro jogo?
– Não sei e você?
– Tô procurando ingresso.
– Soube que a fila tá dando voltas no Capemi, um cara aqui da obra acabou de ir lá. Se você me ligasse cinco minutos atrás, eu dava o dinheiro a ele pra ele comprar o seu.
Essa foi a pior notícia do dia.
Tomei coragem e, no sol de meio dia e meia, fui ao longínquo Manoel Barradas.
Parei o carro e no caminho pra fila, ainda sem vê-la, uns três que vinham na direção contrária, disseram:
– Maluco, se prepare pra ficar duas horas no sol.
E foram duas horas debaixo do sol, ouvindo os comentários alheios, ditos com a mais profunda convicção, sobre os mais diversos temas: futebol; o atacante Marquinhos; a falta de organização para a compra de ingresso; como acabar com os cambistas; o afundamento do Bahia; e a eleição de João Henrique. Todos esses assuntos foram debatidos a exaustão por três caras que se conheceram na fila, na minha frente. Vez em quando eu era convidado a opinar com um olhar, seguido da frase “né, não?”.
Concordei com tudo.
No dia seguinte, cheguei o mais cedo que pude ao estádio. Com fome, procurei o “Açaí Bombadão do Rei Jesus” e felizmente o achei, com todos os seus apetrechos para incrementar o açaí. Pedi só granola e fui me sentar.
A torcida do Flamengo chegou mais cedo ainda e, até aquele momento, estava em maior número. A caravana de Ilhéus, Juazeiro, Ipirá, Itabuna, Feira de Santana e mais uns torcedores do Bahia pareciam espremidos no espaço destinado a eles, que faziam a festa, gritando “aha, uhu, o Barradao é nosso”.
A torcida do Vitória estava demorando de entrar.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem que eles vão ver – disse um senhor do meu lado, visivelmente irritado com a falta de respeito.
– Isso é coisa de torcedor do Bahia – profetizou outro.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem – repetiu o primeiro.
A torcida do Flamengo passou a cantar o tema de Ayrton Senna com aquela letra deles, que acho feia pra caralho.
– Quando Os Imbatíveis chegarem, eles vão ver – disse um outro torcedor.
E nada de Os Imbatíveis chegarem.
Estava tendo um jogo preliminar dos juniores do Vitória contra um time chamado AAB. Até quando o AAB chutava, a torcida do Flamengo fazia “uuuhhh”. Espremidos, começaram a invadir e ocupar um espaço ao lado, inclusive ficando em volta de uma pequena torcida organizada do Vitória, a Camisa 12.
– Os Imbatíveis vêm aí – disse mais um.
Os Imbatíveis eram os salvadores ali. A torcida do Vitória confiava neles a tarefa de calar os flamenguistas.
“Puta que pariu, é a maior torcida do Brasil”, gritavam agora os flamenguistas.
– É que não pode mais beber no estádio, aí Os Imbatíveis tão comendo água lá fora pra já entrarem mamados – disse um outro torcedor.
E "Os Mamados" finalmente chegaram e mandaram de cara um “ei, Flamengo, vá tomar no c...”. Veja no nosso vídeo exclusivo. Outro grito constante foi o de “éu, éu, éu, vai pra casa tabaréu”, num claro preconceito da torcida do Vitória com as caravanas do interior.
Minutos antes do jogo, a torcida do Vitória estava em maior número, mas por muito pouco. Uma provocava a outra. O duelo começou nas arquibancadas. A festa estava acontecendo, tudo estava como manda o figurino, que por sinal era vermelho e preto, até que uma bandeira azul, vermelha e branca apareceu na torcida do Flamengo. Logo após disso, gritos de “Baêêêêêêa, Baêêêêêêêêa” foram entoados.
Eu entendo. Imagino que deva estar sendo difícil pros torcedores do Bahia essa falta de contato com o futebol, com os gols, com a vibração e daí eles precisam dessa dose a mais. É uma questão de sobrevivência.
Enquanto gritavam “Baêa, Baêa”, foram engolidos com gritos de “ão, ão, ão, segunda divisão”, logo depois corrigidos pra “ão, ão, ão, terceira divisão”. Até alguns torcedores do Flamengo, querendo mostrar que existiam flamenguistas ali, entraram nesse coro. Ficou feio pro time de Feira de Santana.
O jogo começou pegando fogo. As torcidas gritando, os times atacando e a luz faltando aos três minutos.
“Luz de boate no Barradao” de novo.
Meia hora depois, a luz voltou. As torcidas estavam inflamadas. A do Flamengo querendo ser campeã, a do Vitória sonhando com a Libertadores e querendo garantir a Sulamericana e a do Bahia peruando.
Os dois times jogavam abertos, se revezando no ataque, perdendo ambos grandes chances de gol. A torcida do Bamengo chiou por um pênalti não marcado em Obina, chamando o juiz de ladrão.
O Flamengo queria devolver a derrota que sofreu pro Vitória em pleno Maracanã, quando era líder do campeonato, porém, o rubro-negro baiano somou quatro pontos esse ano em cima do rival carioca, pois o jogo no Barradão ficou no zero a zero, mesmo tendo muitas boas jogadas, sendo que a melhor delas foi uma jogada muito emblemática e que não foi em cima de nenhum zagueiro, nem de nenhum volante, mas em cima do prefeito reeleito de Salvador, João Henrique, torcedor do Vitória, que, ao chegar ao estádio, foi cercado por torcedores em uma comum manifestação em torno de um político e, achando estar nos braços do seu povo, o prefeito não percebeu que roubaram sua carteira.
No fim do jogo, quando as rádios noticiavam o fato, um torcedor comentou:
– Bem feito, a gangue dele rouba do povo, a gangue do povo rouba dele.
Outro emendou:
– É só a torcida do Bahia aparecer aqui que essas coisas acontecem.
Acredito que esse pode ser um dos porquês de se ter tanto flamenguista espalhado pelo Brasil, fazendo o Flamengo encher todos os estádios.
– A fila tá dando cinco voltas em torno do prédio – disse-me um amigo, sobre a fila pra comprar ingresso pro jogo contra o Flamengo.
Uma vez, em uma viagem pela Chapada Diamantina, eu (Vitória), um amigo torcedor do Bahia e outro torcedor do Flamengo, apostamos quais camisas desses três times seriam as mais vistas durante a viagem, que foi de seis dias. Quem perdesse, teria de virar um copo de cerveja, só que sem cerveja, e sim, com abaíra, uma cachaça famosa por lá. A cachaça em si, é tranqüilo de beber, o problema é o arroto. Não pode arrotar. Se arrotar, fudeu.
O Flamengo ganhou com 15 camisas, seguido do Bahia com 9 e Vitória com 6. Achei até melhor, senão iam dizer que era vice e blá, blá, blá...
Encheram o copo, tremi ao sentir o cheiro, não pensei muito, virei de guti guti, segurei a respiração, soltei o ar devagar, me concentrei, mas não adiantou... O arroto foi inevitável. E com ele, toda a abaíra de volta, junto com um pastel de palmito de jaca que eu tinha acabado de comer.
Esse ano, por causa do blog, fui a quase todos os jogos do Vitória no Barradão. Vi Ipatinga, Náutico, Goiás, Portuguesa, Botafogo... não seria uma fila que iria me impedir de ver o Flamengo. A coisa era pessoal. A abaíra tá até hoje entalada. Nunca mais fui capaz de bebe-la de novo.
Soube que na loja da TIM, no Shopping Barra, estava vendendo o ingresso. Liguei pra lá e ninguém atendia. Resolvi arriscar e na hora do almoço fui até lá.
– Boa tarde, tem o ingresso pro jogo do Vitória?
– Tem...
“Que beleza!”, pensei.
– ... mas acabou – completou a imbecil.
Me concentrei, agradeci e fui embora. A guerra seria longa. Liguei pra Marcelo:
– Vai pro jogo?
– Não sei e você?
– Tô procurando ingresso.
– Soube que a fila tá dando voltas no Capemi, um cara aqui da obra acabou de ir lá. Se você me ligasse cinco minutos atrás, eu dava o dinheiro a ele pra ele comprar o seu.
Essa foi a pior notícia do dia.
Tomei coragem e, no sol de meio dia e meia, fui ao longínquo Manoel Barradas.
Parei o carro e no caminho pra fila, ainda sem vê-la, uns três que vinham na direção contrária, disseram:
– Maluco, se prepare pra ficar duas horas no sol.
E foram duas horas debaixo do sol, ouvindo os comentários alheios, ditos com a mais profunda convicção, sobre os mais diversos temas: futebol; o atacante Marquinhos; a falta de organização para a compra de ingresso; como acabar com os cambistas; o afundamento do Bahia; e a eleição de João Henrique. Todos esses assuntos foram debatidos a exaustão por três caras que se conheceram na fila, na minha frente. Vez em quando eu era convidado a opinar com um olhar, seguido da frase “né, não?”.
Concordei com tudo.
No dia seguinte, cheguei o mais cedo que pude ao estádio. Com fome, procurei o “Açaí Bombadão do Rei Jesus” e felizmente o achei, com todos os seus apetrechos para incrementar o açaí. Pedi só granola e fui me sentar.
A torcida do Flamengo chegou mais cedo ainda e, até aquele momento, estava em maior número. A caravana de Ilhéus, Juazeiro, Ipirá, Itabuna, Feira de Santana e mais uns torcedores do Bahia pareciam espremidos no espaço destinado a eles, que faziam a festa, gritando “aha, uhu, o Barradao é nosso”.
A torcida do Vitória estava demorando de entrar.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem que eles vão ver – disse um senhor do meu lado, visivelmente irritado com a falta de respeito.
– Isso é coisa de torcedor do Bahia – profetizou outro.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem – repetiu o primeiro.
A torcida do Flamengo passou a cantar o tema de Ayrton Senna com aquela letra deles, que acho feia pra caralho.
– Quando Os Imbatíveis chegarem, eles vão ver – disse um outro torcedor.
E nada de Os Imbatíveis chegarem.
Estava tendo um jogo preliminar dos juniores do Vitória contra um time chamado AAB. Até quando o AAB chutava, a torcida do Flamengo fazia “uuuhhh”. Espremidos, começaram a invadir e ocupar um espaço ao lado, inclusive ficando em volta de uma pequena torcida organizada do Vitória, a Camisa 12.
– Os Imbatíveis vêm aí – disse mais um.
Os Imbatíveis eram os salvadores ali. A torcida do Vitória confiava neles a tarefa de calar os flamenguistas.
“Puta que pariu, é a maior torcida do Brasil”, gritavam agora os flamenguistas.
– É que não pode mais beber no estádio, aí Os Imbatíveis tão comendo água lá fora pra já entrarem mamados – disse um outro torcedor.
E "Os Mamados" finalmente chegaram e mandaram de cara um “ei, Flamengo, vá tomar no c...”. Veja no nosso vídeo exclusivo. Outro grito constante foi o de “éu, éu, éu, vai pra casa tabaréu”, num claro preconceito da torcida do Vitória com as caravanas do interior.
Minutos antes do jogo, a torcida do Vitória estava em maior número, mas por muito pouco. Uma provocava a outra. O duelo começou nas arquibancadas. A festa estava acontecendo, tudo estava como manda o figurino, que por sinal era vermelho e preto, até que uma bandeira azul, vermelha e branca apareceu na torcida do Flamengo. Logo após disso, gritos de “Baêêêêêêa, Baêêêêêêêêa” foram entoados.
Eu entendo. Imagino que deva estar sendo difícil pros torcedores do Bahia essa falta de contato com o futebol, com os gols, com a vibração e daí eles precisam dessa dose a mais. É uma questão de sobrevivência.
Enquanto gritavam “Baêa, Baêa”, foram engolidos com gritos de “ão, ão, ão, segunda divisão”, logo depois corrigidos pra “ão, ão, ão, terceira divisão”. Até alguns torcedores do Flamengo, querendo mostrar que existiam flamenguistas ali, entraram nesse coro. Ficou feio pro time de Feira de Santana.
O jogo começou pegando fogo. As torcidas gritando, os times atacando e a luz faltando aos três minutos.
“Luz de boate no Barradao” de novo.
Meia hora depois, a luz voltou. As torcidas estavam inflamadas. A do Flamengo querendo ser campeã, a do Vitória sonhando com a Libertadores e querendo garantir a Sulamericana e a do Bahia peruando.
Os dois times jogavam abertos, se revezando no ataque, perdendo ambos grandes chances de gol. A torcida do Bamengo chiou por um pênalti não marcado em Obina, chamando o juiz de ladrão.
O Flamengo queria devolver a derrota que sofreu pro Vitória em pleno Maracanã, quando era líder do campeonato, porém, o rubro-negro baiano somou quatro pontos esse ano em cima do rival carioca, pois o jogo no Barradão ficou no zero a zero, mesmo tendo muitas boas jogadas, sendo que a melhor delas foi uma jogada muito emblemática e que não foi em cima de nenhum zagueiro, nem de nenhum volante, mas em cima do prefeito reeleito de Salvador, João Henrique, torcedor do Vitória, que, ao chegar ao estádio, foi cercado por torcedores em uma comum manifestação em torno de um político e, achando estar nos braços do seu povo, o prefeito não percebeu que roubaram sua carteira.
No fim do jogo, quando as rádios noticiavam o fato, um torcedor comentou:
– Bem feito, a gangue dele rouba do povo, a gangue do povo rouba dele.
Outro emendou:
– É só a torcida do Bahia aparecer aqui que essas coisas acontecem.
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