Levei de novo meu sobrinho torcedor do Bahia. Como já disse, faço isso pelo menino, pra ele ver um jogo de primeira, com jogadores de primeira, com times de primeira... Além de tudo, ele foi pé quente contra o Grêmio.
Como já disse também, ele joga no infantil do Bahia e viu o time do Santos por lá no Fazendão, treinando pro confronto com o Vitória.
“Mancini fez um golaço”, disse ele, comentando sobre um coletivo em que o treinador (ex) do Santos participou.
Também levei Cezar, um amigo que não ia ao Barradão desde 2004.
– Você não é pé frio, não, né?
– Tá maluco... – respondeu ele.
Chegamos cedo e pela primeira vez na história dessa porra eu não peguei fila pra entrar pela portaria do “Sou mais Vitória”.
O jogo começou.
– O jogo vai ser duro – disse um senhor do meu lado – Mancini conhece o Vitória.É um a zero Vitória – completou.
E em três minutos esse um a zero apareceu. Vacilo clássico de goleiro X astúcia clássica de atacante. Foi dar um chutão, furou, atacante atento, gol.Um a zero. Torcida comemorando e meu sobrinho disse:
– O Santos vai virar.
– Quem vai virar é você, que vai virar Vitória – respondi.
Um gol dessa forma, no início do jogo, além de mexer com o emocional de um time, desmonta todo o seu esquema tático. E isso ficou evidente. O Peixe ficou sem ar, balançando pra lá e pra cá, até que aos 15 minutos Leandro Domingues fez um lançamento primoroso para Roger, o autor do primeiro gol, que chutou para uma boa defesa de Douglas, o goleiro do Santos, o redimindo da merda que fez no lance do primeiro gol. Porém, ele deu rebote e a bola voltou pra Roger, que se redimiu da merda que fez no primeiro chute. Dois a zero.
– Assim vai ser mole – disse o senhor do meu lado, que antes tinha dito que ia ser duro. O que ele não imaginava, nem ninguém ali, é que seria tão mole.
Aos 24 minutos, outro contra ataque fulminante e terceiro gol do Vitória. Três a zero. Aos 28, quatro a zero com um gol Victor Ramos, zagueiro da divisão de base.
– Acabou o jogo. Acho até que vou sair do estádio. Lá fora posso tomar uma cerveja e ver o resto do jogo pelo rádio – brincou Cezar.
O Santos tremia em campo. Tentou sem perigo por algumas vezes, mas nada acontecia. O Vitória, naturalmente, diminuiu o ritmo depois do chocolate que dava. O Santos continuou tentando e conseguiu um pênalti no último lance. Quatro a um. Logo depois da cobrança do pênalti o juiz apitou o fim do primeiro tempo. Os aplausos da torcida do Santos pro golzinho nem foram ouvidos, pois foram abafados pelos aplausos da torcida do Vitória, que aplaudia o time que saia de campo.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
Segundo tempo começou e como era de se esperar, o Santos veio pra cima. O gol no final do tempo anterior deu um ânimo extra aos jogadores, que numa falta cobrada ao 16 minutos, chegou ao segundo gol. Quatro a dois.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
A torcida do Vitória não se abalou muito, mas o time, um pouco, e num rápido contra ataque, a bola chegou na cabeça de Kleber Pereira. Graças a uma defesa milagrosa de Viáfara, o Santos não fez quatro a três. A torcida então sentiu o baque.
– O time relaxou – gritou um torcedor.
– O Santos vai virar – disse meu sobrinho.
O Vitória passou a errar passes no meio de campo e o Santos passou a gostar do jogo.
O clima ficou tenso. Um quatro a três seria emoção demais.
– Tomara que essa porra acabe logo – disse Cezar.
Mas o Vitória tem uma coisa que nenhum time tem. Apodi. Com Apodi, as chances do Vitória estar no campo de ataque são maiores. O time recuperou o fôlego, recuperou o meio campo e voltou a atacar. Criou boas chances e conseguiu um pênalti onde Leandro Domingues, que deu o passe para três dos quatro gols, converteu. Cinco a dois. Nem meu sobrinho falou mais nada. O chocolate já estava escancarado. Cinco minutos depois, Jackson, que acabara de entrar, fez o dele depois de quatro meses parado. Primeiro ele perdeu um gol de cara, chutando pra fora, mas logo depois, ele começou uma jogada tocando pra Roger e correndo pra receber em velocidade, cabeceando de forma fulminante. Seis a dois.
Veja aqui o vídeo do jogo. Não consegui filmar todos os gols (foram muitos), mas tem boas cenas.
Ironia do destino: Mancini pediu demissão do Vitória, mas no primeiro confronto depois disso, o Vitória foi lá e “demitiu” Mancini. Ele achou que conhecia o Vitória, mas na verdade era o Vitória que o conhecia.
Cezar disse:
– Rapaz, quando o juiz apitar, dê um zoom pra filmar Mancini de perto que você vai ver um cara se aproximando dele com a rescisão e uma caneta.
Depois disso o Santos ficou entregue e o Vitória perdeu gols sucessivos. Poderia ter sido nove ou dez a dois. Apodi infernizou o ataque do time que o desprezou no ano passado. Não tem como ele não correr, é só ele pegar na bola que vinte mil pessoas começam a gritar “vai, Apodi, vai, Apodi, vai, maluco, vai, Apodi...”. E ele vai.
Apodi é ídolo. Devia ter uma estátua dele no Barradão. Só assim pra ver ele parado.
Os torcedores do Bahia torcem contra Apodi, fazem piadas sobre ele, tentam denegrir, invejosamente, o nosso velocista... Mas a gente entende. Os caras estão acabados.
De vez em quando eu leio blogs alheios de torcedores do Bahia (assim como leio blogs de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Internacional...) e os textos dos torcedores do Bahia são o reflexo da nostalgia. Os temas são sempre “ah, como era bom aquele tempo, 30 anos atrás...”, ou de revolta por goleadas sofridas contra Américas da PQP, Ipatingas e Figueirenses.
E Paulo Carneiro vestindo a camisa do Bahia foi a coisa mais estapafúrdia do ano. O termo “vestir a camisa da empresa” pode se empregar em qualquer ocasião, menos em um time de futebol, onde a camisa é o que veste, sobretudo, o torcedor. Mudar de time quando criança, tudo bem, é normal, é aceitável, o indivíduo está começando a entender as coisas, vendo quem ganha, quem perde e assim passa a gostar de um time ou de outro. Conheço tricolores filhos de rubro-negros e vice-versa. Mas virar a folha depois de velho é lamentável. A torcida do Bahia ainda aceita esse tipo de coisa.
Quando ele foi anunciado, eles repudiaram:
– Um rubro-negro no meu Baêa?! Nem com a porra – diziam os tricolores.
Aí ele deu uma entrevista cheia de pompa, usando uma linguagem moderna de marketing, falando em números, falando do seu passado...
– O cara é um bom administrador, hoje o futebol moderno precisa disso... – mudaram o discurso.
Chega a ser decepcionante ver em como acreditam em tudo. É como lotar a Fonte Nova pra recepcionar Viola em 2005, com 37 anos de idade. Cinqüenta mil foram ver Kaká no Real Madri; mais que isso foi ver Viola. Muitos tricolores ainda se vangloriam desses números.
De qualquer forma, já que Paulo Carneiro fez isso de vestir a camisa, ou ele devia ter feito um regime ou ter pedido à empresa que confecciona aquele pano uma XXG.
Enquanto isso, muitas crianças no Barradão comemoravam, felizes, rindo contentes por causa do seu time. Deve ser por isso que meus amigos torcedores do Bahia andam tão nervosos. Os torcedores mirins do seu time estão sumindo. Sem crianças nos estádios não existe felicidade. Elas estão querendo ir ver o jogo do Vitória.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
terça-feira, 30 de junho de 2009
Vitória X Santo André (Na traaaaave)
Cheguei ao Barradão sem engarrafamento, jogo do Brasil acabara de terminar, muita gente ainda voltando do São João, parei numa vaga boa, sem stress, tudo bem tranqüilo até eu enxergar a fila do Sou Mais Vitória, que mais uma vez era dez vezes maior do que a fila de quem acabou de comprar o ingresso. É meu quinto jogo como associado, é a quinta fila quilométrica que pego e é a quinta vez que flagro torcedores de primeira viagem que achavam que com a compra do dito cujo não pegaria mais fila pra entrar:
– Essa é a fila do Sou Mais Vitória? – perguntou um torcedor acompanhado dos dois filhos e com a carteira de associado na mão.
– É – respondi.
– Do Sou Mais Vitória? – perguntou de novo, sem querer acreditar.
– Isso.
– Que porra é essa? – ficou a se perguntar.
Mas essa é mesmo a pergunta que a diretoria do Vitória tem que responder:
“Que porra é essa?”
Além do mais, muitas queixas de torcedores que ainda não receberam a camisa oficial do time, prometida na compra do Sou Mais Vitória. Eu mesmo fiz minha carteira em fevereiro e até hoje não recebi a camisa, inclusive a minha já está vendida, pois acho o padrão muito feio. As marcas de patrocínio (Tim, MCS, Insinuante, Lupo, Habibs) estão tendo o mesmo peso gráfico que o escudo do time. Tudo do mesmo tamanho. Não dá pra distinguir o que é escudo e o que é marca. Pode ter quantas marcas der, mas que se encontre um equilíbrio no design, deixando o escudo em primeiro plano. Vendi minha camisa (que ainda não recebi, repito) por 100 reais. A pergunta que fica agora é outra. Ou melhor, são duas:
“Que porra é essa?” e “Caso mude o patrocinador do material esportivo, os associados que ainda não receberam a camisa irão receber o padrão velho ou o novo?”.
Sonhamos cheios de esperança com o bom senso da diretoria e do departamento de marketing.
Escolher o lugar pra ver o jogo é uma loteria. Nunca se sabe que tipo de torcedor vai estar do seu lado. Pode ser um calado, pode ser um que fala o tempo todo, um que xinga, um que fuma... Sentei do lado de um que era o pensamento negativo em pessoa. Toda bola que o Vitória pegava ele jogava praga. Apodi pegava na bola, avançava pela lateral e ele dizia:
– Lá vai esse fazer merda, repare no que tô dizendo, ó a merda...
Apodi toca pra Leandro Domingues:
– Ahh, aí fudeu, vai dar em nada, vai perder a bola, repare...
Leandro toca pra Roger, que vai pra cima:
– Vixe, esse é pior ainda, vai fazer nada, essa carniça...
Roger chuta pra fora.
– Não falei... Tô dizendo...
Toda jogada que eu Vitória armava, o cara secava. A palavra mais singela que ele disse foi quando Uellinton errou um passe:
– Que indisplicência da porra, viu? Esse Uellinton é muito indisplicente.
Foi o primeiro tempo todo assim. A pergunta que fica agora é outra:
O Vitória não fazia o gol por que o cara era negativo ou o cara era negativo por que o Vitória não fazia o gol?
Fim do primeiro tempo. Zero a zero.
Resolvi sair do lado do cara negativo e, como sempre faço no segundo tempo, me posicionei bem atrás do gol adversário. Geralmente ali, colado no muro, ficam os torcedores mais exaltados, que passam o jogo todo xingando o goleiro adversário, como nesse vídeo do jogo contra o Goiás pelo campeonato de 2008 (nunca mais encontrei essa figura lá), mas dessa vez ali só tinha crianças. Todas coladas no alambrado.
“Aqui vai ser pensamento positivo o tempo todo, o Vitória vai brocar”, profetizei.
Porém, as crianças, mesmos as mais novas, xingavam o goleiro como se fossem adultos. “Viado”, “frangueiro” e “vai tomar no c...” eram as mais ditas.
O Vitória vinha pra cima, rondava a área e um guri do meu lado ficava gritando, com um fôlego de atleta:
– Ó o mole da zaga, a zaga vai dar mole, vai dar mole...
E numa bola dividida, Elkeson, que era criança quando entrou no Vitória, acreditou na jogada e no mole que a zaga iria dar, deu um drible, avançou e chutou pra marcar um a zero. Apesar de estar com a câmera ligada, não consegui filmar o gol. À medida que Elkeson ia avançando, os pirralhos começaram a balançar o alambrado, me obrigando a ajeitar a filmadora bem na hora do chute... Só captei a comemoração.
Vitória um a zero. Era pouco contra o insosso Santo André, mas eram três pontos a mais na tabela.
Outro ataque do Vitória e numa sobra, Apodi chutou de longe, a bola passou perto, mas saiu pela linha de fundo. Tiro de meta pro Santo André. O gandula “finge” se atrapalhar com a reposição de bola, o goleiro do Santo André se irrita e devolve todos os xingamentos que recebia das crianças no pobre do gandula, que também era uma criança. O juiz então veio dar uma bronca no gandula e quando percebo, vem chegando também Marcelinho Carioca. Como só filmo o ataque rubro-negro, a câmera estava desligada. Liguei na pressa, mas não consegui filmar Marcelinho Carioca, metido a valente, xingar o gandula de “filho da p...”, mandar ele ir “tomar no c...” e dizer, com gestos, que depois acertava as contas com ele.
Quando Vanderlei Luxemburgo o chamou de “moleque” em um programa de televisão pra todo o Brasil ele ficou com o rabinho entre as pernas. Agora pra cima de um gandulinha vem todo valentão... O menino, coitado, ficou todo cabisbaixo.
A polícia chegou e mandou todo mundo sair do alambrado. Eu e as crianças. Tive de subir um tanto pra poder filmar sem a interferência da grade.
O Santo André não desistiu hora nenhuma, queria o gol de empate e a chance apareceu: de forma desnecessária, Magal fez pênalti no meia Rodrigo Fabri, aos 32 minutos do segundo tempo. Um a um naquela altura do jogo seria o pior resultado. O Santo André iria se fechar mais ainda, o Vitória teria que sair de vez, poderia ficar vulnerável e assim até sofrer uma virada no contra-ataque. Mas me lembrei que quem iria bater o pênalti era Marcelinho Carioca, o chatão otário covarde.
– Vai perder – falei pra um cara que tava do meu lado, rezando para todos os santos. Menos pra Santo André, imagino.
Eu estava com tanta certeza, com tanto pensamento positivo, que rompi com a minha superstição e liguei a câmera pra filmar um “ataque” do time adversário. Sabia que o idiotão iria perder. Sabia que o gandula seria vingado e iria rir por último.
Não filmei o primeiro gol do Vitória, mas tenho uma ótima imagem do gol não feito de Marcelinho Carioca, renovando a torcida e o time, que foi pra cima logo em seguida e fez mais dois gols, abrindo três a zero. Tudo devidamente filmado. Clique aqui e veja o vídeo desse jogo.
Depois o Santo André diminuiu fazendo um golzinho, mas precisaria de um milagre pra reagir, ainda mais depois que Neneca, o goleiro, fez lambança e cometeu um pênalti em Roger. A polícia deixou os torcedores colarem de novo no alambrado. Roger mostrou a Marcelinho Carioca como é que faz e fechou o placar. Vitória 4 X 1 Santo André e a terceira colocação na tabela.
– Essa é a fila do Sou Mais Vitória? – perguntou um torcedor acompanhado dos dois filhos e com a carteira de associado na mão.
– É – respondi.
– Do Sou Mais Vitória? – perguntou de novo, sem querer acreditar.
– Isso.
– Que porra é essa? – ficou a se perguntar.
Mas essa é mesmo a pergunta que a diretoria do Vitória tem que responder:
“Que porra é essa?”
Além do mais, muitas queixas de torcedores que ainda não receberam a camisa oficial do time, prometida na compra do Sou Mais Vitória. Eu mesmo fiz minha carteira em fevereiro e até hoje não recebi a camisa, inclusive a minha já está vendida, pois acho o padrão muito feio. As marcas de patrocínio (Tim, MCS, Insinuante, Lupo, Habibs) estão tendo o mesmo peso gráfico que o escudo do time. Tudo do mesmo tamanho. Não dá pra distinguir o que é escudo e o que é marca. Pode ter quantas marcas der, mas que se encontre um equilíbrio no design, deixando o escudo em primeiro plano. Vendi minha camisa (que ainda não recebi, repito) por 100 reais. A pergunta que fica agora é outra. Ou melhor, são duas:
“Que porra é essa?” e “Caso mude o patrocinador do material esportivo, os associados que ainda não receberam a camisa irão receber o padrão velho ou o novo?”.
Sonhamos cheios de esperança com o bom senso da diretoria e do departamento de marketing.
Escolher o lugar pra ver o jogo é uma loteria. Nunca se sabe que tipo de torcedor vai estar do seu lado. Pode ser um calado, pode ser um que fala o tempo todo, um que xinga, um que fuma... Sentei do lado de um que era o pensamento negativo em pessoa. Toda bola que o Vitória pegava ele jogava praga. Apodi pegava na bola, avançava pela lateral e ele dizia:
– Lá vai esse fazer merda, repare no que tô dizendo, ó a merda...
Apodi toca pra Leandro Domingues:
– Ahh, aí fudeu, vai dar em nada, vai perder a bola, repare...
Leandro toca pra Roger, que vai pra cima:
– Vixe, esse é pior ainda, vai fazer nada, essa carniça...
Roger chuta pra fora.
– Não falei... Tô dizendo...
Toda jogada que eu Vitória armava, o cara secava. A palavra mais singela que ele disse foi quando Uellinton errou um passe:
– Que indisplicência da porra, viu? Esse Uellinton é muito indisplicente.
Foi o primeiro tempo todo assim. A pergunta que fica agora é outra:
O Vitória não fazia o gol por que o cara era negativo ou o cara era negativo por que o Vitória não fazia o gol?
Fim do primeiro tempo. Zero a zero.
Resolvi sair do lado do cara negativo e, como sempre faço no segundo tempo, me posicionei bem atrás do gol adversário. Geralmente ali, colado no muro, ficam os torcedores mais exaltados, que passam o jogo todo xingando o goleiro adversário, como nesse vídeo do jogo contra o Goiás pelo campeonato de 2008 (nunca mais encontrei essa figura lá), mas dessa vez ali só tinha crianças. Todas coladas no alambrado.
“Aqui vai ser pensamento positivo o tempo todo, o Vitória vai brocar”, profetizei.
Porém, as crianças, mesmos as mais novas, xingavam o goleiro como se fossem adultos. “Viado”, “frangueiro” e “vai tomar no c...” eram as mais ditas.
O Vitória vinha pra cima, rondava a área e um guri do meu lado ficava gritando, com um fôlego de atleta:
– Ó o mole da zaga, a zaga vai dar mole, vai dar mole...
E numa bola dividida, Elkeson, que era criança quando entrou no Vitória, acreditou na jogada e no mole que a zaga iria dar, deu um drible, avançou e chutou pra marcar um a zero. Apesar de estar com a câmera ligada, não consegui filmar o gol. À medida que Elkeson ia avançando, os pirralhos começaram a balançar o alambrado, me obrigando a ajeitar a filmadora bem na hora do chute... Só captei a comemoração.
Vitória um a zero. Era pouco contra o insosso Santo André, mas eram três pontos a mais na tabela.
Outro ataque do Vitória e numa sobra, Apodi chutou de longe, a bola passou perto, mas saiu pela linha de fundo. Tiro de meta pro Santo André. O gandula “finge” se atrapalhar com a reposição de bola, o goleiro do Santo André se irrita e devolve todos os xingamentos que recebia das crianças no pobre do gandula, que também era uma criança. O juiz então veio dar uma bronca no gandula e quando percebo, vem chegando também Marcelinho Carioca. Como só filmo o ataque rubro-negro, a câmera estava desligada. Liguei na pressa, mas não consegui filmar Marcelinho Carioca, metido a valente, xingar o gandula de “filho da p...”, mandar ele ir “tomar no c...” e dizer, com gestos, que depois acertava as contas com ele.
Quando Vanderlei Luxemburgo o chamou de “moleque” em um programa de televisão pra todo o Brasil ele ficou com o rabinho entre as pernas. Agora pra cima de um gandulinha vem todo valentão... O menino, coitado, ficou todo cabisbaixo.
A polícia chegou e mandou todo mundo sair do alambrado. Eu e as crianças. Tive de subir um tanto pra poder filmar sem a interferência da grade.
O Santo André não desistiu hora nenhuma, queria o gol de empate e a chance apareceu: de forma desnecessária, Magal fez pênalti no meia Rodrigo Fabri, aos 32 minutos do segundo tempo. Um a um naquela altura do jogo seria o pior resultado. O Santo André iria se fechar mais ainda, o Vitória teria que sair de vez, poderia ficar vulnerável e assim até sofrer uma virada no contra-ataque. Mas me lembrei que quem iria bater o pênalti era Marcelinho Carioca, o chatão otário covarde.
– Vai perder – falei pra um cara que tava do meu lado, rezando para todos os santos. Menos pra Santo André, imagino.
Eu estava com tanta certeza, com tanto pensamento positivo, que rompi com a minha superstição e liguei a câmera pra filmar um “ataque” do time adversário. Sabia que o idiotão iria perder. Sabia que o gandula seria vingado e iria rir por último.
Não filmei o primeiro gol do Vitória, mas tenho uma ótima imagem do gol não feito de Marcelinho Carioca, renovando a torcida e o time, que foi pra cima logo em seguida e fez mais dois gols, abrindo três a zero. Tudo devidamente filmado. Clique aqui e veja o vídeo desse jogo.
Depois o Santo André diminuiu fazendo um golzinho, mas precisaria de um milagre pra reagir, ainda mais depois que Neneca, o goleiro, fez lambança e cometeu um pênalti em Roger. A polícia deixou os torcedores colarem de novo no alambrado. Roger mostrou a Marcelinho Carioca como é que faz e fechou o placar. Vitória 4 X 1 Santo André e a terceira colocação na tabela.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Vitória X Grêmio (aos 48 vale 3)
Meu cunhado é torcedor do Bahia e com isso meus quatro sobrinhos também são. Luca, o único menino, tem 11 anos e joga no infantil do Bahia. Às vezes treina no Fazendão.
– Quer ir ver Vitória X Grêmio? – convidei.
– Tá maluco, pisar no Barralixo, cheio de urubu voando – disse ele, soltando todas as velhas piadas tricolores.
Seu pai entrou na conversa e uma breve discussão Vitória X Bahia começou. Eles fizeram todo aquele sonolento discurso de sempre, que na década de 70 era diferente e blá, blá, blá... Esperei eles terminarem, bocejei e disse:
– Luquinha, você tem 11 anos e seu pai já te levou pra Fonte Nova e Pituaçu inúmeras vezes, mas ele já te levou alguma vez pra ver um jogo da primeira divisão?
Foi o único argumento que precisei. O menino fica vendo pela televisão jogos do Manchester, Barcelona, Milan, Real Madri e quando vai pro estádio, é obrigado a ver Ipatinga, Brasiliense, Bahia...
– Mas vou de camisa azul – exigiu ele.
Não vi problemas.
O jogo começaria às 16h. Saímos às 14:20, pegamos o clássico engarrafamento e às 15:45 conseguimos estacionar. Às 15:55 pegamos outro engarrafamento. A velha e boa e fila do “Sou Mais Otário”. Apesar de já ter pago pelo ano inteiro, o associado do Sou Mais Vitória é obrigado a ficar em uma enorme fila pra entrar no Barradão, sendo que o principal motivo dele se associar foi justamente para não pegar fila alguma. O ruim de ficar nessa fila, além do sol na cara, foi que perdemos 5 minutos do primeiro tempo. O lado bom foi que não tivemos de ouvir “vai buscar Dalila...”. Mais chato que essa música só torcedor do Bahia. E por sinal, como de costume, tinham vários deles na torcida adversária.
Torcedor do Bahia tem tudo pra ser um cara feliz. Durante o ano ele torce pro São Paulo, pro Grêmio, pro Flamengo, pro Internacional, pro Cruzeiro, pro Palmeiras...
– Seu Vitória vai levar fumo do Grêmio – diziam antes do jogo.
Os torcedores do Bahia estão muito tensos. Qualquer conversa sobre futebol já começam gritando, desesperados por atenção.
Encontrei um amigo meu depois da goleada sofrida contra o Vasco e o cara me xingou todo.
– Tomou no cu, filho da puta, viado, se fudeu, seu Vitória de merda, sua puta...
Eu convenci Luca a ir pro jogo dizendo que ele veria um jogo do Grêmio, mas o decepcionei. Só o Vitória jogou. Ele, de camisa azul, torcia baixinho, mas sem muito efeito.
O Vitória atacou o tempo todo, mas apesar das constantes investidas, a zaga do Grêmio parecia intransponível. Zagueiros gigantes. E se passasse por eles, ainda tinha de passar pelo goleiro gigante, recém convocado pra seleção brasileira.
Mas gigante mesmo é Apodi. Apodi bota pra f... Correu, driblou, deu canseira, tomou faltas e fez um jogador do Grêmio ser expulso.
Mesmo com um a mais, o Vitória não finalizava com tranqüilidade. Se manteve no ataque, mas o gol não saía. O tempo foi passando e o zero a zero foi ficando pesado para o Vitória. O Grêmio jogou o tempo todo pensando nele.
Empatar em casa, jogando bem, com um a mais, era perder dois pontos e não ganhar um. Mas com o Vitória cada vez mais ofensivo, em dois momentos passei a achar o zero a zero um bom resultado. Aproveitando o time aberto, o Grêmio, em dois contra-ataques rápidos, fez Viáfara ser um dos heróis da partida. Duas fantásticas defesas. Uma delas aos 43 do segundo tempo.
“Melhor acabar logo o jogo”, cheguei a pensar.
Mas aos 48 minutos Apodi tocou a bola pra Leandro Domingues, que durante o jogo todo tentou fazer gol de cabeça, pelo meio, linha de fundo, tabelando e nada de conseguir furar o bloqueio gremista.
No intervalo do jogo, um torcedor comentou alto que pra furar aquela zaga só chutando de fora. Leandro seguiu o conselho, chutou de longe e a bola foi indo, indo, indo, indo, indo... “e iu”. Não foi um gol. Foi um golaço. Aliás, não foi um golaço; foi um golaço aos 48 do segundo tempo. Veja o vídeo aqui.
O jogo terminou 1 X 0, nove pontos, a segunda colocação na tabela e inúmeros tricolores frustrados.
– Quer ir ver Vitória X Grêmio? – convidei.
– Tá maluco, pisar no Barralixo, cheio de urubu voando – disse ele, soltando todas as velhas piadas tricolores.
Seu pai entrou na conversa e uma breve discussão Vitória X Bahia começou. Eles fizeram todo aquele sonolento discurso de sempre, que na década de 70 era diferente e blá, blá, blá... Esperei eles terminarem, bocejei e disse:
– Luquinha, você tem 11 anos e seu pai já te levou pra Fonte Nova e Pituaçu inúmeras vezes, mas ele já te levou alguma vez pra ver um jogo da primeira divisão?
Foi o único argumento que precisei. O menino fica vendo pela televisão jogos do Manchester, Barcelona, Milan, Real Madri e quando vai pro estádio, é obrigado a ver Ipatinga, Brasiliense, Bahia...
– Mas vou de camisa azul – exigiu ele.
Não vi problemas.
O jogo começaria às 16h. Saímos às 14:20, pegamos o clássico engarrafamento e às 15:45 conseguimos estacionar. Às 15:55 pegamos outro engarrafamento. A velha e boa e fila do “Sou Mais Otário”. Apesar de já ter pago pelo ano inteiro, o associado do Sou Mais Vitória é obrigado a ficar em uma enorme fila pra entrar no Barradão, sendo que o principal motivo dele se associar foi justamente para não pegar fila alguma. O ruim de ficar nessa fila, além do sol na cara, foi que perdemos 5 minutos do primeiro tempo. O lado bom foi que não tivemos de ouvir “vai buscar Dalila...”. Mais chato que essa música só torcedor do Bahia. E por sinal, como de costume, tinham vários deles na torcida adversária.
Torcedor do Bahia tem tudo pra ser um cara feliz. Durante o ano ele torce pro São Paulo, pro Grêmio, pro Flamengo, pro Internacional, pro Cruzeiro, pro Palmeiras...
– Seu Vitória vai levar fumo do Grêmio – diziam antes do jogo.
Os torcedores do Bahia estão muito tensos. Qualquer conversa sobre futebol já começam gritando, desesperados por atenção.
Encontrei um amigo meu depois da goleada sofrida contra o Vasco e o cara me xingou todo.
– Tomou no cu, filho da puta, viado, se fudeu, seu Vitória de merda, sua puta...
Eu convenci Luca a ir pro jogo dizendo que ele veria um jogo do Grêmio, mas o decepcionei. Só o Vitória jogou. Ele, de camisa azul, torcia baixinho, mas sem muito efeito.
O Vitória atacou o tempo todo, mas apesar das constantes investidas, a zaga do Grêmio parecia intransponível. Zagueiros gigantes. E se passasse por eles, ainda tinha de passar pelo goleiro gigante, recém convocado pra seleção brasileira.
Mas gigante mesmo é Apodi. Apodi bota pra f... Correu, driblou, deu canseira, tomou faltas e fez um jogador do Grêmio ser expulso.
Mesmo com um a mais, o Vitória não finalizava com tranqüilidade. Se manteve no ataque, mas o gol não saía. O tempo foi passando e o zero a zero foi ficando pesado para o Vitória. O Grêmio jogou o tempo todo pensando nele.
Empatar em casa, jogando bem, com um a mais, era perder dois pontos e não ganhar um. Mas com o Vitória cada vez mais ofensivo, em dois momentos passei a achar o zero a zero um bom resultado. Aproveitando o time aberto, o Grêmio, em dois contra-ataques rápidos, fez Viáfara ser um dos heróis da partida. Duas fantásticas defesas. Uma delas aos 43 do segundo tempo.
“Melhor acabar logo o jogo”, cheguei a pensar.
Mas aos 48 minutos Apodi tocou a bola pra Leandro Domingues, que durante o jogo todo tentou fazer gol de cabeça, pelo meio, linha de fundo, tabelando e nada de conseguir furar o bloqueio gremista.
No intervalo do jogo, um torcedor comentou alto que pra furar aquela zaga só chutando de fora. Leandro seguiu o conselho, chutou de longe e a bola foi indo, indo, indo, indo, indo... “e iu”. Não foi um gol. Foi um golaço. Aliás, não foi um golaço; foi um golaço aos 48 do segundo tempo. Veja o vídeo aqui.
O jogo terminou 1 X 0, nove pontos, a segunda colocação na tabela e inúmeros tricolores frustrados.
domingo, 3 de maio de 2009
Ba x Vi (Ah, eu duvido)
Por que, meu Deus, por que um simples jogo de futebol mexe tanto com as pessoas?
Por que gostamos de humilhar nossos próprios amigos com palavras pesadas pelo simples fato do time que eles torcem
ter perdido um jogo?
Um Ba x Vi é realmente algo inigualável. Já vi muitos. Já sofri em alguns. Estava no de Raudinei. Estava também no título que o Bahia ganhou no Barradão. 2 a 0. Dois gols de Wesley. Não lembro o ano.
Em dia de Ba x Vi, a atmosfera da cidade muda. Um clima de tensão se instala no ar. Nada importa, só o jogo. Só a vitória. Não importa se seu time está na primeira divisão e o outro na segunda. Não importa se tem oito anos que o outro time não ganha um campeonato baiano... tudo vai por água a baixo se seu time não ganhar aquele jogo.
Assim como hoje, dia 03/05, dia do BAVI final de 2009, o tempo daquele jogo de Wesley estava demasiadamente chuvoso. Nessas horas a superstição sempre aparece:
“Porra, naquele jogo estava chovendo, era no Barradão, o Bahia ganhou por 2 a 0, mesmo placar que tem que fazer hoje...”. Até torci pro jogo ser cancelado.
Era meu primeiro jogo no campeonato baiano desse ano. Já tinha ido pra Juventude e Atlético Mineiro pela Copa do Brasil, mas não tive paciência em fazer resenhas desses jogos pra esse blog. A única coisa que eu tive vontade de falar desses jogos foi que comprei o Sou Mais Vitória e gostaria de sugerir a direção do clube que mudasse o nome do negócio pra Sou Mais Otário. Comprei pra justamente não ter de pegar fila nem me preocupar com compra de ingresso, porém, a fila dos associados é bem maior do que a de quem vai na bilheteria e compra um ingresso. Nos dois jogos perdi o começo do primeiro tempo. Eu e centenas. Apenas duas catracas funcionando. Lamentável. Se não consegue melhorar o serviço de algo tão simples, inclusive já tendo recebido por ele, me pergunto se consegue administrar um time na série A do campeonato brasileiro.
Fui com meu pai. Faziam 5 anos que ele não ia aos estádios. Nem Barradão nem Fonte Nova. Compramos o Sou Mais Vitória já prevendo os jogos finais do Baiano, o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Sul-americana. Chegamos cedo, pois sabia que teria filas enormes, o que aborreceria meu pai. Infelizmente, em jogos no meio da semana não dá pra chegar tão cedo. Às 15 horas, já estávamos sentados.
A torcida do Bahia compareceu com uma “moquequinha de gente ali no cantinho”. Tinham como grito de guerra o “Ah, eu acredito”. Acreditavam no placar com dois gols de diferença. O maior fato para esse acreditar era o repetido “oxe, já dei 2 a 0 lá nesse ano, o Barradão é meu parque de diversões”.
Tudo que o Vitória queria quase aconteceu. Apodi, ídolo máximo (pelo menos pra mim), perdeu um gol incrível.
E tudo que o Bahia queria aconteceu. Em seguida a jogada de Apodi, ainda no início do jogo, gol do Bahia. 1 x 0. A moquequinha ficou ouriçada, berrando loucamente o “ah, eu acredito, ah, eu acredito”. A torcida do Vitória não se abalou. Continuou apoiando o time, pois sabia do tamanho da viabilidade de reverter a situação. O jogo ficou naquele reme-reme e tudo que a torcida do Vitória não queria aconteceu. Aos 47 do primeiro tempo, gol do Bahia. Golaço, por sinal. 2 x 0 e fim do primeiro tempo.
– Melhor 2 a 0 aos 47 do primeiro tempo do que aos 47 do segundo tempo – disse pra meu pai, com otimismo.
A moqueca foi à loucura: “Bahia, Bahia, Bahia”; “ah, eu acredito”; “sabe, eu sou Baêa...”; “ah, eu acredito”...
Foi o intervalo todo assim.
O pesadelo Wesley não saía de minha mente. A chuva não dava trégua, encharcando minha calça jeans, meu tênis e deixando a derrota ainda mais humilhante e dolorosa.
Trabalho numa sala com 10 pessoas. Sete são Bahia. Dois são Vitória (contando comigo) e um é do interior e torce pro Flamengo. Só imaginava como seria a segunda-feira.
“Não acredito que isso tá acontecendo, com toda a vantagem, com toda a campanha, com a descabaçada em Pituaçu, perder o campeonato por 2 a 0, no Barradão, pra um time de segunda...” foram os pensamentos que me fizeram respirar fundo por várias vezes durante o jogo. Não podia acreditar no que estava acontecendo.
“Ah, eu acredito”, berravam eles sem parar.
A chuva, além de degradar a moral, me obrigou a deixar a filmadora debaixo do casaco. Como choveu o tempo todo, não filmei quase nada do jogo. Mas de repente, a chuva cessou. A superstição então se acendeu. Sou baiano, ora bolas.
“A chuva parar assim é um sinal pra eu ligar a câmera, pois vai acontecer o gol do Vitória”, pensava eu.
Esse vídeo responde se minha superstição deu certo.
2 x 1. Gol de Neto Baiano, artilheiro da competição. O título voltava pras mãos do Vitória e passava longe, pelo oitavo ano consecutivo, das mãos do Bahia. A moqueca ficou calada. O Bahia veio descontrolado pra cima enquanto o Vitória perdia gols sucessivamente nos contra-ataques. A chuva voltou com tudo. Não filmei o segundo gol do Vitória por causa dela. 2 x 2. Ramon.
Gostaria de agradecer ao Bahia pelos dois gols iniciais. Deu mais sabor ao jogo. Temperou o título.
Também, por causa da chuva, não filmei o “créu, créu, créu” que torcida e jogadores do Vitória fizeram no fim do jogo. Também não deu pra filmar o “senta que é de menta”, o grito de “tri-campeãããão” e o melhor de todos os gritos: o grito de "ah, eu acredito", gritado agora pela torcida do Vitória, enquanto os torcedores, digo, sofredores do Bahia olhavam calados, sem acreditar.
Outra coisa que não pude filmar por causa da chuva foi o vexame do paspalho do goleiro do Bahia, Marcelo, que com um choro de perdedor começou uma luta campal depois do apito final. Em seguida, também não pude filmar a torcida do Vitória gritando “time de puta, time de puta...”.
O Bahia, pelo oitavo ano consecutivo, não apareceu no Fantástico como ator principal da noite das finais dos estaduais. Seus torcedores, pelo oitavo ano consecutivo, não ligaram a TV domingo de noite.
Em tempo, só pra gozar um pouco mais:
Quatro amigos (Peu, Beto, Léo e Carlão) prepararam uma despedida de solteiro para Zé, que iria se casar em uma semana. Alugaram uma casa no litoral norte e convidaram, mediante pagamento, algumas garotas para a festa. Já no fim da noite, exauridos, finalmente começaram a conversar com elas. Falaram da vida, de cinema, de música, carnaval e, claro, futebol. Beto então perguntou:
– Vocês torcem pra que time?
– Eu torço pro Bahia – disse a primeira, uma morena alta.
– Eu também – falou a loirinha.
– Sou Bahia, claro, time da massa – disse a mulata.
– Tricolor de aço, sempre – se adiantou a oriental.
– Baêa, minha porra – disse a baixinha.
Um silêncio momentâneo tomou conta do ambiente. Constatando que todas torciam pro Bahia, Peu, Beto, Carlão e Zé, torcedores do Bahia, ficaram olhando com ar superior pra Léo, o único torcedor do Vitória no local. Mas Léo nem se abalou:
– Normal, já sabia disso... – disse ele.
– Já sabia o quê? Que o Bahia é maioria? – pirraçou Carlão.
– Não. Que o Bahia é time de puta – respondeu Léo.
Por que gostamos de humilhar nossos próprios amigos com palavras pesadas pelo simples fato do time que eles torcem
ter perdido um jogo?
Um Ba x Vi é realmente algo inigualável. Já vi muitos. Já sofri em alguns. Estava no de Raudinei. Estava também no título que o Bahia ganhou no Barradão. 2 a 0. Dois gols de Wesley. Não lembro o ano.
Em dia de Ba x Vi, a atmosfera da cidade muda. Um clima de tensão se instala no ar. Nada importa, só o jogo. Só a vitória. Não importa se seu time está na primeira divisão e o outro na segunda. Não importa se tem oito anos que o outro time não ganha um campeonato baiano... tudo vai por água a baixo se seu time não ganhar aquele jogo.
Assim como hoje, dia 03/05, dia do BAVI final de 2009, o tempo daquele jogo de Wesley estava demasiadamente chuvoso. Nessas horas a superstição sempre aparece:
“Porra, naquele jogo estava chovendo, era no Barradão, o Bahia ganhou por 2 a 0, mesmo placar que tem que fazer hoje...”. Até torci pro jogo ser cancelado.
Era meu primeiro jogo no campeonato baiano desse ano. Já tinha ido pra Juventude e Atlético Mineiro pela Copa do Brasil, mas não tive paciência em fazer resenhas desses jogos pra esse blog. A única coisa que eu tive vontade de falar desses jogos foi que comprei o Sou Mais Vitória e gostaria de sugerir a direção do clube que mudasse o nome do negócio pra Sou Mais Otário. Comprei pra justamente não ter de pegar fila nem me preocupar com compra de ingresso, porém, a fila dos associados é bem maior do que a de quem vai na bilheteria e compra um ingresso. Nos dois jogos perdi o começo do primeiro tempo. Eu e centenas. Apenas duas catracas funcionando. Lamentável. Se não consegue melhorar o serviço de algo tão simples, inclusive já tendo recebido por ele, me pergunto se consegue administrar um time na série A do campeonato brasileiro.
Fui com meu pai. Faziam 5 anos que ele não ia aos estádios. Nem Barradão nem Fonte Nova. Compramos o Sou Mais Vitória já prevendo os jogos finais do Baiano, o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Sul-americana. Chegamos cedo, pois sabia que teria filas enormes, o que aborreceria meu pai. Infelizmente, em jogos no meio da semana não dá pra chegar tão cedo. Às 15 horas, já estávamos sentados.
A torcida do Bahia compareceu com uma “moquequinha de gente ali no cantinho”. Tinham como grito de guerra o “Ah, eu acredito”. Acreditavam no placar com dois gols de diferença. O maior fato para esse acreditar era o repetido “oxe, já dei 2 a 0 lá nesse ano, o Barradão é meu parque de diversões”.
Tudo que o Vitória queria quase aconteceu. Apodi, ídolo máximo (pelo menos pra mim), perdeu um gol incrível.
E tudo que o Bahia queria aconteceu. Em seguida a jogada de Apodi, ainda no início do jogo, gol do Bahia. 1 x 0. A moquequinha ficou ouriçada, berrando loucamente o “ah, eu acredito, ah, eu acredito”. A torcida do Vitória não se abalou. Continuou apoiando o time, pois sabia do tamanho da viabilidade de reverter a situação. O jogo ficou naquele reme-reme e tudo que a torcida do Vitória não queria aconteceu. Aos 47 do primeiro tempo, gol do Bahia. Golaço, por sinal. 2 x 0 e fim do primeiro tempo.
– Melhor 2 a 0 aos 47 do primeiro tempo do que aos 47 do segundo tempo – disse pra meu pai, com otimismo.
A moqueca foi à loucura: “Bahia, Bahia, Bahia”; “ah, eu acredito”; “sabe, eu sou Baêa...”; “ah, eu acredito”...
Foi o intervalo todo assim.
O pesadelo Wesley não saía de minha mente. A chuva não dava trégua, encharcando minha calça jeans, meu tênis e deixando a derrota ainda mais humilhante e dolorosa.
Trabalho numa sala com 10 pessoas. Sete são Bahia. Dois são Vitória (contando comigo) e um é do interior e torce pro Flamengo. Só imaginava como seria a segunda-feira.
“Não acredito que isso tá acontecendo, com toda a vantagem, com toda a campanha, com a descabaçada em Pituaçu, perder o campeonato por 2 a 0, no Barradão, pra um time de segunda...” foram os pensamentos que me fizeram respirar fundo por várias vezes durante o jogo. Não podia acreditar no que estava acontecendo.
“Ah, eu acredito”, berravam eles sem parar.
A chuva, além de degradar a moral, me obrigou a deixar a filmadora debaixo do casaco. Como choveu o tempo todo, não filmei quase nada do jogo. Mas de repente, a chuva cessou. A superstição então se acendeu. Sou baiano, ora bolas.
“A chuva parar assim é um sinal pra eu ligar a câmera, pois vai acontecer o gol do Vitória”, pensava eu.
Esse vídeo responde se minha superstição deu certo.
2 x 1. Gol de Neto Baiano, artilheiro da competição. O título voltava pras mãos do Vitória e passava longe, pelo oitavo ano consecutivo, das mãos do Bahia. A moqueca ficou calada. O Bahia veio descontrolado pra cima enquanto o Vitória perdia gols sucessivamente nos contra-ataques. A chuva voltou com tudo. Não filmei o segundo gol do Vitória por causa dela. 2 x 2. Ramon.
Gostaria de agradecer ao Bahia pelos dois gols iniciais. Deu mais sabor ao jogo. Temperou o título.
Também, por causa da chuva, não filmei o “créu, créu, créu” que torcida e jogadores do Vitória fizeram no fim do jogo. Também não deu pra filmar o “senta que é de menta”, o grito de “tri-campeãããão” e o melhor de todos os gritos: o grito de "ah, eu acredito", gritado agora pela torcida do Vitória, enquanto os torcedores, digo, sofredores do Bahia olhavam calados, sem acreditar.
Outra coisa que não pude filmar por causa da chuva foi o vexame do paspalho do goleiro do Bahia, Marcelo, que com um choro de perdedor começou uma luta campal depois do apito final. Em seguida, também não pude filmar a torcida do Vitória gritando “time de puta, time de puta...”.
O Bahia, pelo oitavo ano consecutivo, não apareceu no Fantástico como ator principal da noite das finais dos estaduais. Seus torcedores, pelo oitavo ano consecutivo, não ligaram a TV domingo de noite.
Em tempo, só pra gozar um pouco mais:
Quatro amigos (Peu, Beto, Léo e Carlão) prepararam uma despedida de solteiro para Zé, que iria se casar em uma semana. Alugaram uma casa no litoral norte e convidaram, mediante pagamento, algumas garotas para a festa. Já no fim da noite, exauridos, finalmente começaram a conversar com elas. Falaram da vida, de cinema, de música, carnaval e, claro, futebol. Beto então perguntou:
– Vocês torcem pra que time?
– Eu torço pro Bahia – disse a primeira, uma morena alta.
– Eu também – falou a loirinha.
– Sou Bahia, claro, time da massa – disse a mulata.
– Tricolor de aço, sempre – se adiantou a oriental.
– Baêa, minha porra – disse a baixinha.
Um silêncio momentâneo tomou conta do ambiente. Constatando que todas torciam pro Bahia, Peu, Beto, Carlão e Zé, torcedores do Bahia, ficaram olhando com ar superior pra Léo, o único torcedor do Vitória no local. Mas Léo nem se abalou:
– Normal, já sabia disso... – disse ele.
– Já sabia o quê? Que o Bahia é maioria? – pirraçou Carlão.
– Não. Que o Bahia é time de puta – respondeu Léo.
sábado, 1 de novembro de 2008
Vitória X Flamengo (torcida genérica)
Meu pai é torcedor do Vitória, mas começou como flamenguista. Quando era pequeno, na cidade de Vitória da Conquista, o único contato com o futebol que ele tinha era através do rádio, e apenas sobre o campeonato carioca. Escolheu o Flamengo. Mais velho, veio pra Salvador e quando viu o Vitória entrando em campo, com as mesmas cores do Flamengo, decidiu que era para o Vitória que ele iria torcer. Nasci e, naturalmente, sou torcedor do Vitória. E não simpatizo com o Flamengo.
Acredito que esse pode ser um dos porquês de se ter tanto flamenguista espalhado pelo Brasil, fazendo o Flamengo encher todos os estádios.
– A fila tá dando cinco voltas em torno do prédio – disse-me um amigo, sobre a fila pra comprar ingresso pro jogo contra o Flamengo.
Uma vez, em uma viagem pela Chapada Diamantina, eu (Vitória), um amigo torcedor do Bahia e outro torcedor do Flamengo, apostamos quais camisas desses três times seriam as mais vistas durante a viagem, que foi de seis dias. Quem perdesse, teria de virar um copo de cerveja, só que sem cerveja, e sim, com abaíra, uma cachaça famosa por lá. A cachaça em si, é tranqüilo de beber, o problema é o arroto. Não pode arrotar. Se arrotar, fudeu.
O Flamengo ganhou com 15 camisas, seguido do Bahia com 9 e Vitória com 6. Achei até melhor, senão iam dizer que era vice e blá, blá, blá...
Encheram o copo, tremi ao sentir o cheiro, não pensei muito, virei de guti guti, segurei a respiração, soltei o ar devagar, me concentrei, mas não adiantou... O arroto foi inevitável. E com ele, toda a abaíra de volta, junto com um pastel de palmito de jaca que eu tinha acabado de comer.
Esse ano, por causa do blog, fui a quase todos os jogos do Vitória no Barradão. Vi Ipatinga, Náutico, Goiás, Portuguesa, Botafogo... não seria uma fila que iria me impedir de ver o Flamengo. A coisa era pessoal. A abaíra tá até hoje entalada. Nunca mais fui capaz de bebe-la de novo.
Soube que na loja da TIM, no Shopping Barra, estava vendendo o ingresso. Liguei pra lá e ninguém atendia. Resolvi arriscar e na hora do almoço fui até lá.
– Boa tarde, tem o ingresso pro jogo do Vitória?
– Tem...
“Que beleza!”, pensei.
– ... mas acabou – completou a imbecil.
Me concentrei, agradeci e fui embora. A guerra seria longa. Liguei pra Marcelo:
– Vai pro jogo?
– Não sei e você?
– Tô procurando ingresso.
– Soube que a fila tá dando voltas no Capemi, um cara aqui da obra acabou de ir lá. Se você me ligasse cinco minutos atrás, eu dava o dinheiro a ele pra ele comprar o seu.
Essa foi a pior notícia do dia.
Tomei coragem e, no sol de meio dia e meia, fui ao longínquo Manoel Barradas.
Parei o carro e no caminho pra fila, ainda sem vê-la, uns três que vinham na direção contrária, disseram:
– Maluco, se prepare pra ficar duas horas no sol.
E foram duas horas debaixo do sol, ouvindo os comentários alheios, ditos com a mais profunda convicção, sobre os mais diversos temas: futebol; o atacante Marquinhos; a falta de organização para a compra de ingresso; como acabar com os cambistas; o afundamento do Bahia; e a eleição de João Henrique. Todos esses assuntos foram debatidos a exaustão por três caras que se conheceram na fila, na minha frente. Vez em quando eu era convidado a opinar com um olhar, seguido da frase “né, não?”.
Concordei com tudo.
No dia seguinte, cheguei o mais cedo que pude ao estádio. Com fome, procurei o “Açaí Bombadão do Rei Jesus” e felizmente o achei, com todos os seus apetrechos para incrementar o açaí. Pedi só granola e fui me sentar.
A torcida do Flamengo chegou mais cedo ainda e, até aquele momento, estava em maior número. A caravana de Ilhéus, Juazeiro, Ipirá, Itabuna, Feira de Santana e mais uns torcedores do Bahia pareciam espremidos no espaço destinado a eles, que faziam a festa, gritando “aha, uhu, o Barradao é nosso”.
A torcida do Vitória estava demorando de entrar.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem que eles vão ver – disse um senhor do meu lado, visivelmente irritado com a falta de respeito.
– Isso é coisa de torcedor do Bahia – profetizou outro.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem – repetiu o primeiro.
A torcida do Flamengo passou a cantar o tema de Ayrton Senna com aquela letra deles, que acho feia pra caralho.
– Quando Os Imbatíveis chegarem, eles vão ver – disse um outro torcedor.
E nada de Os Imbatíveis chegarem.
Estava tendo um jogo preliminar dos juniores do Vitória contra um time chamado AAB. Até quando o AAB chutava, a torcida do Flamengo fazia “uuuhhh”. Espremidos, começaram a invadir e ocupar um espaço ao lado, inclusive ficando em volta de uma pequena torcida organizada do Vitória, a Camisa 12.
– Os Imbatíveis vêm aí – disse mais um.
Os Imbatíveis eram os salvadores ali. A torcida do Vitória confiava neles a tarefa de calar os flamenguistas.
“Puta que pariu, é a maior torcida do Brasil”, gritavam agora os flamenguistas.
– É que não pode mais beber no estádio, aí Os Imbatíveis tão comendo água lá fora pra já entrarem mamados – disse um outro torcedor.
E "Os Mamados" finalmente chegaram e mandaram de cara um “ei, Flamengo, vá tomar no c...”. Veja no nosso vídeo exclusivo. Outro grito constante foi o de “éu, éu, éu, vai pra casa tabaréu”, num claro preconceito da torcida do Vitória com as caravanas do interior.
Minutos antes do jogo, a torcida do Vitória estava em maior número, mas por muito pouco. Uma provocava a outra. O duelo começou nas arquibancadas. A festa estava acontecendo, tudo estava como manda o figurino, que por sinal era vermelho e preto, até que uma bandeira azul, vermelha e branca apareceu na torcida do Flamengo. Logo após disso, gritos de “Baêêêêêêa, Baêêêêêêêêa” foram entoados.
Eu entendo. Imagino que deva estar sendo difícil pros torcedores do Bahia essa falta de contato com o futebol, com os gols, com a vibração e daí eles precisam dessa dose a mais. É uma questão de sobrevivência.
Enquanto gritavam “Baêa, Baêa”, foram engolidos com gritos de “ão, ão, ão, segunda divisão”, logo depois corrigidos pra “ão, ão, ão, terceira divisão”. Até alguns torcedores do Flamengo, querendo mostrar que existiam flamenguistas ali, entraram nesse coro. Ficou feio pro time de Feira de Santana.
O jogo começou pegando fogo. As torcidas gritando, os times atacando e a luz faltando aos três minutos.
“Luz de boate no Barradao” de novo.
Meia hora depois, a luz voltou. As torcidas estavam inflamadas. A do Flamengo querendo ser campeã, a do Vitória sonhando com a Libertadores e querendo garantir a Sulamericana e a do Bahia peruando.
Os dois times jogavam abertos, se revezando no ataque, perdendo ambos grandes chances de gol. A torcida do Bamengo chiou por um pênalti não marcado em Obina, chamando o juiz de ladrão.
O Flamengo queria devolver a derrota que sofreu pro Vitória em pleno Maracanã, quando era líder do campeonato, porém, o rubro-negro baiano somou quatro pontos esse ano em cima do rival carioca, pois o jogo no Barradão ficou no zero a zero, mesmo tendo muitas boas jogadas, sendo que a melhor delas foi uma jogada muito emblemática e que não foi em cima de nenhum zagueiro, nem de nenhum volante, mas em cima do prefeito reeleito de Salvador, João Henrique, torcedor do Vitória, que, ao chegar ao estádio, foi cercado por torcedores em uma comum manifestação em torno de um político e, achando estar nos braços do seu povo, o prefeito não percebeu que roubaram sua carteira.
No fim do jogo, quando as rádios noticiavam o fato, um torcedor comentou:
– Bem feito, a gangue dele rouba do povo, a gangue do povo rouba dele.
Outro emendou:
– É só a torcida do Bahia aparecer aqui que essas coisas acontecem.
Acredito que esse pode ser um dos porquês de se ter tanto flamenguista espalhado pelo Brasil, fazendo o Flamengo encher todos os estádios.
– A fila tá dando cinco voltas em torno do prédio – disse-me um amigo, sobre a fila pra comprar ingresso pro jogo contra o Flamengo.
Uma vez, em uma viagem pela Chapada Diamantina, eu (Vitória), um amigo torcedor do Bahia e outro torcedor do Flamengo, apostamos quais camisas desses três times seriam as mais vistas durante a viagem, que foi de seis dias. Quem perdesse, teria de virar um copo de cerveja, só que sem cerveja, e sim, com abaíra, uma cachaça famosa por lá. A cachaça em si, é tranqüilo de beber, o problema é o arroto. Não pode arrotar. Se arrotar, fudeu.
O Flamengo ganhou com 15 camisas, seguido do Bahia com 9 e Vitória com 6. Achei até melhor, senão iam dizer que era vice e blá, blá, blá...
Encheram o copo, tremi ao sentir o cheiro, não pensei muito, virei de guti guti, segurei a respiração, soltei o ar devagar, me concentrei, mas não adiantou... O arroto foi inevitável. E com ele, toda a abaíra de volta, junto com um pastel de palmito de jaca que eu tinha acabado de comer.
Esse ano, por causa do blog, fui a quase todos os jogos do Vitória no Barradão. Vi Ipatinga, Náutico, Goiás, Portuguesa, Botafogo... não seria uma fila que iria me impedir de ver o Flamengo. A coisa era pessoal. A abaíra tá até hoje entalada. Nunca mais fui capaz de bebe-la de novo.
Soube que na loja da TIM, no Shopping Barra, estava vendendo o ingresso. Liguei pra lá e ninguém atendia. Resolvi arriscar e na hora do almoço fui até lá.
– Boa tarde, tem o ingresso pro jogo do Vitória?
– Tem...
“Que beleza!”, pensei.
– ... mas acabou – completou a imbecil.
Me concentrei, agradeci e fui embora. A guerra seria longa. Liguei pra Marcelo:
– Vai pro jogo?
– Não sei e você?
– Tô procurando ingresso.
– Soube que a fila tá dando voltas no Capemi, um cara aqui da obra acabou de ir lá. Se você me ligasse cinco minutos atrás, eu dava o dinheiro a ele pra ele comprar o seu.
Essa foi a pior notícia do dia.
Tomei coragem e, no sol de meio dia e meia, fui ao longínquo Manoel Barradas.
Parei o carro e no caminho pra fila, ainda sem vê-la, uns três que vinham na direção contrária, disseram:
– Maluco, se prepare pra ficar duas horas no sol.
E foram duas horas debaixo do sol, ouvindo os comentários alheios, ditos com a mais profunda convicção, sobre os mais diversos temas: futebol; o atacante Marquinhos; a falta de organização para a compra de ingresso; como acabar com os cambistas; o afundamento do Bahia; e a eleição de João Henrique. Todos esses assuntos foram debatidos a exaustão por três caras que se conheceram na fila, na minha frente. Vez em quando eu era convidado a opinar com um olhar, seguido da frase “né, não?”.
Concordei com tudo.
No dia seguinte, cheguei o mais cedo que pude ao estádio. Com fome, procurei o “Açaí Bombadão do Rei Jesus” e felizmente o achei, com todos os seus apetrechos para incrementar o açaí. Pedi só granola e fui me sentar.
A torcida do Flamengo chegou mais cedo ainda e, até aquele momento, estava em maior número. A caravana de Ilhéus, Juazeiro, Ipirá, Itabuna, Feira de Santana e mais uns torcedores do Bahia pareciam espremidos no espaço destinado a eles, que faziam a festa, gritando “aha, uhu, o Barradao é nosso”.
A torcida do Vitória estava demorando de entrar.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem que eles vão ver – disse um senhor do meu lado, visivelmente irritado com a falta de respeito.
– Isso é coisa de torcedor do Bahia – profetizou outro.
– Deixe Os Imbatíveis chegarem – repetiu o primeiro.
A torcida do Flamengo passou a cantar o tema de Ayrton Senna com aquela letra deles, que acho feia pra caralho.
– Quando Os Imbatíveis chegarem, eles vão ver – disse um outro torcedor.
E nada de Os Imbatíveis chegarem.
Estava tendo um jogo preliminar dos juniores do Vitória contra um time chamado AAB. Até quando o AAB chutava, a torcida do Flamengo fazia “uuuhhh”. Espremidos, começaram a invadir e ocupar um espaço ao lado, inclusive ficando em volta de uma pequena torcida organizada do Vitória, a Camisa 12.
– Os Imbatíveis vêm aí – disse mais um.
Os Imbatíveis eram os salvadores ali. A torcida do Vitória confiava neles a tarefa de calar os flamenguistas.
“Puta que pariu, é a maior torcida do Brasil”, gritavam agora os flamenguistas.
– É que não pode mais beber no estádio, aí Os Imbatíveis tão comendo água lá fora pra já entrarem mamados – disse um outro torcedor.
E "Os Mamados" finalmente chegaram e mandaram de cara um “ei, Flamengo, vá tomar no c...”. Veja no nosso vídeo exclusivo. Outro grito constante foi o de “éu, éu, éu, vai pra casa tabaréu”, num claro preconceito da torcida do Vitória com as caravanas do interior.
Minutos antes do jogo, a torcida do Vitória estava em maior número, mas por muito pouco. Uma provocava a outra. O duelo começou nas arquibancadas. A festa estava acontecendo, tudo estava como manda o figurino, que por sinal era vermelho e preto, até que uma bandeira azul, vermelha e branca apareceu na torcida do Flamengo. Logo após disso, gritos de “Baêêêêêêa, Baêêêêêêêêa” foram entoados.
Eu entendo. Imagino que deva estar sendo difícil pros torcedores do Bahia essa falta de contato com o futebol, com os gols, com a vibração e daí eles precisam dessa dose a mais. É uma questão de sobrevivência.
Enquanto gritavam “Baêa, Baêa”, foram engolidos com gritos de “ão, ão, ão, segunda divisão”, logo depois corrigidos pra “ão, ão, ão, terceira divisão”. Até alguns torcedores do Flamengo, querendo mostrar que existiam flamenguistas ali, entraram nesse coro. Ficou feio pro time de Feira de Santana.
O jogo começou pegando fogo. As torcidas gritando, os times atacando e a luz faltando aos três minutos.
“Luz de boate no Barradao” de novo.
Meia hora depois, a luz voltou. As torcidas estavam inflamadas. A do Flamengo querendo ser campeã, a do Vitória sonhando com a Libertadores e querendo garantir a Sulamericana e a do Bahia peruando.
Os dois times jogavam abertos, se revezando no ataque, perdendo ambos grandes chances de gol. A torcida do Bamengo chiou por um pênalti não marcado em Obina, chamando o juiz de ladrão.
O Flamengo queria devolver a derrota que sofreu pro Vitória em pleno Maracanã, quando era líder do campeonato, porém, o rubro-negro baiano somou quatro pontos esse ano em cima do rival carioca, pois o jogo no Barradão ficou no zero a zero, mesmo tendo muitas boas jogadas, sendo que a melhor delas foi uma jogada muito emblemática e que não foi em cima de nenhum zagueiro, nem de nenhum volante, mas em cima do prefeito reeleito de Salvador, João Henrique, torcedor do Vitória, que, ao chegar ao estádio, foi cercado por torcedores em uma comum manifestação em torno de um político e, achando estar nos braços do seu povo, o prefeito não percebeu que roubaram sua carteira.
No fim do jogo, quando as rádios noticiavam o fato, um torcedor comentou:
– Bem feito, a gangue dele rouba do povo, a gangue do povo rouba dele.
Outro emendou:
– É só a torcida do Bahia aparecer aqui que essas coisas acontecem.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Vitória X Fluminense (Salvador 40º)
Por causa do horário de verão, que nem tem mais na Bahia, o jogo foi transferido das 16h, hora local, para às 15h, hora de Brasília. Vesti uma bermuda, uma camiseta, passei protetor solar fator 50 e fui ao Barradão.
Mais uma vez, antes do jogo começar, enquanto o torcedor está no engarrafamento, o programa do radialista Zé Eduardo, conhecido como Bocão, deu uma notícia, tendo como fontes alguns telefonemas de algumas mulheres que se auto-denominavam por “Maria-chuteiras”, dizendo que os jogadores do Vitória estavam envolvidos em bebedeiras e brigas nas noites de Salvador, principalmente o atacante Marquinhos, que já está vendido pro Palmeiras.
– O time, além de está caindo de produção, vai jogar no sol e de ressaca?! – gritava o apresentador.
Essa notícia era demais pra torcida, que já entrou no estádio tensa, e de novo, graças ao desespero desse apresentador, pela audiência.
Como compro o ingresso antecipadamente, entrei no estádio sem problemas, diferente do meu amigo Marcelo, que comprou o cartão que dá acesso a todos os jogos, pela promoção “Sou mais Vitória”. Os computadores travaram, provocando uma enorme fila, queimando a cara e a paciência de milhares de torcedores, que xingavam todas as gerações, de todos os dirigentes do clube.
Comigo, a mulher pegou o ingresso, destacou, devolveu o canhoto e pronto, eu já estava dentro, na sombrinha.
Era o primeiro jogo desse blog que não acontece de noite. Como o blog é pé-quente (pelo menos o Vitória não perdeu nenhum jogo, visto por mim, no Barradão, nesse campeonato), achei que, sendo o primeiro jogo pela tarde, era um mal sinal.
Tenho minhas superstições, inclusive, o fato de eu não filmar o ataque adversário é uma delas.
O time do Vitória, sabiamente, entrou com o uniforme número 2, que é branco. O sol estava insuportável e o Fluminense também. Bola na trave aos dois minutos. Um pipoqueiro, de camisa preta e calça de veludo também preta, parou do meu lado, me oferecendo pipoca.
– Tá quente? – perguntei.
– Tá sim – disse ele, mexendo o produto.
Ele achou que eu tava perguntando da pipoca.
No gramado, o Vitória parecia frio. O Fluminense, desesperado por estar na zona de rebaixamento, veio pra cima. Um torcedor do meu lado, de cabeça quente, após outra grande chance do Flu, gritou:
– Esse time não treina de tarde, não, é? Mas que merda!
Mas aos 16, Rafael tabelou com Robert e fez um gol. Aliás, um golaço. Veja na nossa câmera exclusiva.
1 X 0 Vitória.
– Quem não faz toma – disse um acima.
Mais desesperado que Zé Eduardo Bocão, o Fluminense continuou vindo pra cima, sendo parado apenas pelo árbitro, que parou o jogo para que os jogadores bebessem água. Nunca vi isso.
E o Fluminense voltou com o mesmo ritmo. Dessa vez, Viáfara defendeu.
Essa minha superstição de não filmar o ataque adversário tem sido muito injusta com esse goleiro, pois nunca registro os seus milagrosos feitos.
E só por um milagre, ele pegaria o chute do jogador carioca, aos 36, em uma cobrança de falta, de longe, mas que fez uma curva louca e foi no ângulo. Golaço. Não filmei. 1 X 1. Fim do primeiro tempo.
E no primeiro minuto do segundo tempo, que teve outra pausa pra água (água que, por sinal, nas arquibancadas custava dois reais o copinho de 300 ml), o Fluminense virou o jogo. Falha dos zagueiros. Comecei a achar que poderia ser a primeira derrota do blog. “Culpa do horário”, pensei, com minhas superstições.
E o Fluminense, mesmo ganhando, continuou no ataque, por pouco não ampliando o placar pra 3 X 1.
O inferno astral tomava conta da torcida. Marquinhos era o mais cobrado. O time estava perdendo, ele era o craque do time, já estava vendido e ainda havia a denúncia de antes do jogo.
– Cachaceiro – começou a ser o grito da torcida em direção a ele.
E aos 20 minutos, quando vi que a bola ia em sua direção, cheguei a pensar: “Vai Marquinhos, justifique aí sua contratação pelo Palmeiras, porra”. E ele justificou. Craque é craque. Ele ficou na entrada da área, esperando a sobra, e, como já fez muitas vezes nesse campeonato – vide os vídeos deste blog –, quando a bola veio, do jeito que veio, ele já foi driblando e chutando. Gol. Aliás, golaço. Veja na nossa câmera exclusiva.. 2 X 2. Placar que terminou o jogo. E justiça seja feita, por culpa do árbitro, que não marcou um pênalti pro Fluminense, aos 46, fazendo o atacante Washington ter um ataque de chiliques em pleno Barradão.
A torcida do Vitória saiu insatisfeita, dessa vez com razão, porém, cantando para os tricolores que foram assistir ao jogo, do Bahia (que vão direto ao Barradao) e do Fluminense, o coro “ão, ão, ão, segunda divisão”.
Mais uma vez, antes do jogo começar, enquanto o torcedor está no engarrafamento, o programa do radialista Zé Eduardo, conhecido como Bocão, deu uma notícia, tendo como fontes alguns telefonemas de algumas mulheres que se auto-denominavam por “Maria-chuteiras”, dizendo que os jogadores do Vitória estavam envolvidos em bebedeiras e brigas nas noites de Salvador, principalmente o atacante Marquinhos, que já está vendido pro Palmeiras.
– O time, além de está caindo de produção, vai jogar no sol e de ressaca?! – gritava o apresentador.
Essa notícia era demais pra torcida, que já entrou no estádio tensa, e de novo, graças ao desespero desse apresentador, pela audiência.
Como compro o ingresso antecipadamente, entrei no estádio sem problemas, diferente do meu amigo Marcelo, que comprou o cartão que dá acesso a todos os jogos, pela promoção “Sou mais Vitória”. Os computadores travaram, provocando uma enorme fila, queimando a cara e a paciência de milhares de torcedores, que xingavam todas as gerações, de todos os dirigentes do clube.
Comigo, a mulher pegou o ingresso, destacou, devolveu o canhoto e pronto, eu já estava dentro, na sombrinha.
Era o primeiro jogo desse blog que não acontece de noite. Como o blog é pé-quente (pelo menos o Vitória não perdeu nenhum jogo, visto por mim, no Barradão, nesse campeonato), achei que, sendo o primeiro jogo pela tarde, era um mal sinal.
Tenho minhas superstições, inclusive, o fato de eu não filmar o ataque adversário é uma delas.
O time do Vitória, sabiamente, entrou com o uniforme número 2, que é branco. O sol estava insuportável e o Fluminense também. Bola na trave aos dois minutos. Um pipoqueiro, de camisa preta e calça de veludo também preta, parou do meu lado, me oferecendo pipoca.
– Tá quente? – perguntei.
– Tá sim – disse ele, mexendo o produto.
Ele achou que eu tava perguntando da pipoca.
No gramado, o Vitória parecia frio. O Fluminense, desesperado por estar na zona de rebaixamento, veio pra cima. Um torcedor do meu lado, de cabeça quente, após outra grande chance do Flu, gritou:
– Esse time não treina de tarde, não, é? Mas que merda!
Mas aos 16, Rafael tabelou com Robert e fez um gol. Aliás, um golaço. Veja na nossa câmera exclusiva.
1 X 0 Vitória.
– Quem não faz toma – disse um acima.
Mais desesperado que Zé Eduardo Bocão, o Fluminense continuou vindo pra cima, sendo parado apenas pelo árbitro, que parou o jogo para que os jogadores bebessem água. Nunca vi isso.
E o Fluminense voltou com o mesmo ritmo. Dessa vez, Viáfara defendeu.
Essa minha superstição de não filmar o ataque adversário tem sido muito injusta com esse goleiro, pois nunca registro os seus milagrosos feitos.
E só por um milagre, ele pegaria o chute do jogador carioca, aos 36, em uma cobrança de falta, de longe, mas que fez uma curva louca e foi no ângulo. Golaço. Não filmei. 1 X 1. Fim do primeiro tempo.
E no primeiro minuto do segundo tempo, que teve outra pausa pra água (água que, por sinal, nas arquibancadas custava dois reais o copinho de 300 ml), o Fluminense virou o jogo. Falha dos zagueiros. Comecei a achar que poderia ser a primeira derrota do blog. “Culpa do horário”, pensei, com minhas superstições.
E o Fluminense, mesmo ganhando, continuou no ataque, por pouco não ampliando o placar pra 3 X 1.
O inferno astral tomava conta da torcida. Marquinhos era o mais cobrado. O time estava perdendo, ele era o craque do time, já estava vendido e ainda havia a denúncia de antes do jogo.
– Cachaceiro – começou a ser o grito da torcida em direção a ele.
E aos 20 minutos, quando vi que a bola ia em sua direção, cheguei a pensar: “Vai Marquinhos, justifique aí sua contratação pelo Palmeiras, porra”. E ele justificou. Craque é craque. Ele ficou na entrada da área, esperando a sobra, e, como já fez muitas vezes nesse campeonato – vide os vídeos deste blog –, quando a bola veio, do jeito que veio, ele já foi driblando e chutando. Gol. Aliás, golaço. Veja na nossa câmera exclusiva.. 2 X 2. Placar que terminou o jogo. E justiça seja feita, por culpa do árbitro, que não marcou um pênalti pro Fluminense, aos 46, fazendo o atacante Washington ter um ataque de chiliques em pleno Barradão.
A torcida do Vitória saiu insatisfeita, dessa vez com razão, porém, cantando para os tricolores que foram assistir ao jogo, do Bahia (que vão direto ao Barradao) e do Fluminense, o coro “ão, ão, ão, segunda divisão”.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Vitória X Portuguesa (sem vira-vira)
Sem tráfego no caminho, já fui percebendo que o Barradão estaria vazio. Na porta do estádio, um carro de som tocando ininterruptamente o jingle de Imbassahy, crianças catando latinhas, um cara com um megafone fazendo propaganda da TIM e até alguns torcedores. O número era lastimável, diante da campanha que o Vitória vem fazendo.
Entrei no estádio e fui procurar algo pra comer. Encontrei um amigo meu, torcedor do Bahia, com um carrinho de espetinhos.
– Fica ai torcendo contra, né?
– Que nada, só quero ganhar dinheiro, vai querer um?
Não como carne e recusei. Não tive coragem de ir no acarajé, nem no óleo do pastel feito na hora. Já estava desanimado, achando que teria de matar a fome com pipoca e amendoim semi cru, quando avistei uma barraquinha de açaí em pleno Barradão.
“Açaí Bombadão do Rei Jesus”, dizia a faixa. O “Rei Jesus” estava no corpo de um jovem. Um jovem muito gordo, por sinal.
– É você que faz o açaí? – perguntei a ele.
– Sim, eu mesmo.
– E faz como? – eu estava tentando saber a procedência do produto.
– Açaí, xarope e banana.
– E gelo?
– Sem gelo.
– Posso provar?
Ele abriu o isopor, deu uma colherada profunda e me entregou a colher.
– Quanto é? – perguntei.
– Tem de 2, de 3, de 4 e de 5.
Peguei o de 3.
– Quer com o quê?
– Granola – respondi.
Ele disponibilizava também caldas de chocolate, baunilha, morango, granulados coloridos e paçoca.
– Porra, ninguém gosta de colocar essas coisas no açaí, só eu – disse o gordo.
O jogo começou. Não foi como no primeiro turno, contra a mesma Portuguesa, em que Dinei fez o gol mais rápido do campeonato, porém, com 10 minutos de jogo, o Vitória já ganhava por 2 X 0.
Dois gols muitos parecidos. Leandro Domingues avançando pelo meio, sendo derrubado, falta marcada e gol. O primeiro, inclusive, foi parecido também com o gol contra o Coritiba. Falta cobrada, goleiro espalmou e Marcelo Cordeiro aproveitou o rebote. O segundo gol, o goleiro nem segurou a bola chutada por Robert, autor também do chute que resultou no primeiro gol. Veja aqui, na nossa câmera exclusiva.
Depois do 2 X 0, como acontece com qualquer time, o Vitória desacelerou; como acontece com qualquer time, a Portuguesa veio pra cima e como acontece sempre com a torcida do Vitória, a impaciência e intolerância tomou conta do estádio. O time dando 2 a 0 e um retardado do meu lado vaiando, reclamando do time... como muitos pelo estádio.
– Esse Mancini é pirracento... Não colocou Ramon de pirraça.
Passava um tempo, e ele:
– Esse Marquinhos já era, é um merda. Foi vendido, já era...
Reclamou de Alexi Portela, de Jorge Sampaio, de Marco Antonio... e o time dando 2 a 0, indo pra sexta colocação do campeonato brasileiro da série A, no ano em que subiu, depois de três anos... Vá torcer pro defunto do Bahia, então, porra.
Segundo tempo começou. Mesmo reme-reme. A coisa só mudou aos 43, quando a Portuguesa temperou o jogo e o palavreado do meu torcedor-vizinho. Ele já tava puto com a entrada de Jackson no lugar de Robert, dizendo que Jackson devia tá comendo Mancini.
– Por que não colocou Ramon? É pirraça. Ainda tirou Robert e deixou Marquinhos, é pirraça.
E quando o Vitória tomou o gol, depois de estar sofrendo pressão, ele ficou repetindo sem parar, durante uns três minutos “é brincadeira um negócio desse, só pode... é brincadeira isso... é brincadeira isso...”. Qualquer bola, ele gritava “é brincadeira, isso”.
O medo de um empate estava presente em todos na torcida. A portuguesa estava pressionando: bola na trave, defesa milagrosa de Viáfara... o empate parecia próximo, até que Jackson lutou por uma bola que já tava quase perdida e tocou para Marquinhos na entrada da grande área, que chutou no canto aos 47, fazendo 3 X 1 e definindo o placar. Muitos não viram o gol, já tinham ido embora do estádio, pirados com o time.
Indo embora, dei uma de Mancini-pirracento. Passei pelo torcedor-chatão e falei alto:
– Jackson brocou...
Ele fingiu que não ouviu.
Um guri que estava na minha frente, que conhecia mais de futebol do que muitos ali, concordou comigol. Veja aqui, na nossa câmera exclusiva.
Entrei no estádio e fui procurar algo pra comer. Encontrei um amigo meu, torcedor do Bahia, com um carrinho de espetinhos.
– Fica ai torcendo contra, né?
– Que nada, só quero ganhar dinheiro, vai querer um?
Não como carne e recusei. Não tive coragem de ir no acarajé, nem no óleo do pastel feito na hora. Já estava desanimado, achando que teria de matar a fome com pipoca e amendoim semi cru, quando avistei uma barraquinha de açaí em pleno Barradão.
“Açaí Bombadão do Rei Jesus”, dizia a faixa. O “Rei Jesus” estava no corpo de um jovem. Um jovem muito gordo, por sinal.
– É você que faz o açaí? – perguntei a ele.
– Sim, eu mesmo.
– E faz como? – eu estava tentando saber a procedência do produto.
– Açaí, xarope e banana.
– E gelo?
– Sem gelo.
– Posso provar?
Ele abriu o isopor, deu uma colherada profunda e me entregou a colher.
– Quanto é? – perguntei.
– Tem de 2, de 3, de 4 e de 5.
Peguei o de 3.
– Quer com o quê?
– Granola – respondi.
Ele disponibilizava também caldas de chocolate, baunilha, morango, granulados coloridos e paçoca.
– Porra, ninguém gosta de colocar essas coisas no açaí, só eu – disse o gordo.
O jogo começou. Não foi como no primeiro turno, contra a mesma Portuguesa, em que Dinei fez o gol mais rápido do campeonato, porém, com 10 minutos de jogo, o Vitória já ganhava por 2 X 0.
Dois gols muitos parecidos. Leandro Domingues avançando pelo meio, sendo derrubado, falta marcada e gol. O primeiro, inclusive, foi parecido também com o gol contra o Coritiba. Falta cobrada, goleiro espalmou e Marcelo Cordeiro aproveitou o rebote. O segundo gol, o goleiro nem segurou a bola chutada por Robert, autor também do chute que resultou no primeiro gol. Veja aqui, na nossa câmera exclusiva.
Depois do 2 X 0, como acontece com qualquer time, o Vitória desacelerou; como acontece com qualquer time, a Portuguesa veio pra cima e como acontece sempre com a torcida do Vitória, a impaciência e intolerância tomou conta do estádio. O time dando 2 a 0 e um retardado do meu lado vaiando, reclamando do time... como muitos pelo estádio.
– Esse Mancini é pirracento... Não colocou Ramon de pirraça.
Passava um tempo, e ele:
– Esse Marquinhos já era, é um merda. Foi vendido, já era...
Reclamou de Alexi Portela, de Jorge Sampaio, de Marco Antonio... e o time dando 2 a 0, indo pra sexta colocação do campeonato brasileiro da série A, no ano em que subiu, depois de três anos... Vá torcer pro defunto do Bahia, então, porra.
Segundo tempo começou. Mesmo reme-reme. A coisa só mudou aos 43, quando a Portuguesa temperou o jogo e o palavreado do meu torcedor-vizinho. Ele já tava puto com a entrada de Jackson no lugar de Robert, dizendo que Jackson devia tá comendo Mancini.
– Por que não colocou Ramon? É pirraça. Ainda tirou Robert e deixou Marquinhos, é pirraça.
E quando o Vitória tomou o gol, depois de estar sofrendo pressão, ele ficou repetindo sem parar, durante uns três minutos “é brincadeira um negócio desse, só pode... é brincadeira isso... é brincadeira isso...”. Qualquer bola, ele gritava “é brincadeira, isso”.
O medo de um empate estava presente em todos na torcida. A portuguesa estava pressionando: bola na trave, defesa milagrosa de Viáfara... o empate parecia próximo, até que Jackson lutou por uma bola que já tava quase perdida e tocou para Marquinhos na entrada da grande área, que chutou no canto aos 47, fazendo 3 X 1 e definindo o placar. Muitos não viram o gol, já tinham ido embora do estádio, pirados com o time.
Indo embora, dei uma de Mancini-pirracento. Passei pelo torcedor-chatão e falei alto:
– Jackson brocou...
Ele fingiu que não ouviu.
Um guri que estava na minha frente, que conhecia mais de futebol do que muitos ali, concordou comigol. Veja aqui, na nossa câmera exclusiva.
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